Em um cenário marcado por mudanças no comportamento do consumidor, a gastronomia brasileira começa a viver um novo momento. A valorização da comida simples, bem executada e com apelo afetivo ganha força, impulsionada pela busca por experiências mais autênticas e pela necessidade de escolhas mais conscientes.
Depois de um período em que pratos elaborados, ingredientes exóticos e apresentações pensadas para as redes sociais dominaram cardápios, o público passa a priorizar sabor, fartura e conforto. Dessa forma, o que está em jogo não é a rejeição à qualidade, mas uma redefinição do que realmente importa à mesa.
Consumo mais consciente
O movimento acompanha um contexto econômico que exige mais atenção às escolhas. Segundo a pesquisa Consumer Insights, da Kantar, os brasileiros estão cada vez mais atentos à relação entre custo e benefício, especialmente no setor de alimentação.
Assim, cresce a preferência por refeições que entreguem valor percebido, sem necessariamente estarem associadas à sofisticação ou ao status. Por outro lado, a qualidade continua sendo um fator decisivo, mas passa a ser avaliada de maneira mais prática e sensorial.
O retorno do sabor e da memória afetiva
Na prática, o que se observa é uma valorização de receitas tradicionais, porções generosas e sabores familiares. Além disso, ganha força a chamada comfort food, tendência global que privilegia pratos capazes de despertar lembranças e proporcionar acolhimento.
Massas, preparações compartilháveis e receitas que remetem ao ambiente familiar voltam ao centro das escolhas. Enquanto isso, a refeição deixa de ser apenas um momento funcional e passa a representar conexão e bem-estar.
“O consumidor continua exigente, mas busca qualidade associada ao sabor, à fartura e à sensação de que fez uma boa escolha”, afirma Gabriel Alberti, da Itália no Box.
Segundo Alberti, a mudança reflete um consumidor mais maduro e menos influenciado por modismos. “Muitas vezes, um prato simples, bem executado e servido de forma generosa cria uma experiência muito mais marcante do que algo extremamente elaborado”, completa.
Impacto no food service
O novo comportamento já provoca efeitos no setor de food service. Restaurantes, franquias e lanchonetes passam a revisar seus cardápios, buscando equilibrar inovação com familiaridade. Dessa forma, receitas clássicas ganham releituras mais acessíveis, sem abrir mão da identidade.
Especialistas apontam que a chamada “desgourmetização” não significa um retrocesso, mas um ajuste às expectativas atuais. A experiência completa — que envolve sabor, porção adequada, preço justo e consistência — passa a ter mais peso do que a exclusividade de um prato.
Simplicidade como valor
A mudança reforça atributos que sempre estiveram na base da boa gastronomia: ingredientes de qualidade, execução cuidadosa e capacidade de criar experiências memoráveis. Além disso, evidencia um consumidor que continua disposto a investir em alimentação, desde que a entrega seja percebida como genuína.
“O brasileiro tem uma relação muito afetiva com a comida. O que estamos vendo é um retorno a essa essência. O sabor voltou a ocupar o centro da experiência gastronômica”, destaca Alberti.
Em um mercado competitivo, a simplicidade passa a se consolidar como diferencial. Portanto, mais do que tendência, o movimento indica uma mudança estrutural na forma como os brasileiros se relacionam com a comida.
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