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    Sonora Fantasma transforma despedida do pai em canção ‘Até Amanhã’

    31/07/2026Nenhum comentário Música
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    A Sonora Fantasma está de volta com uma canção que atravessa a dor da perda e a transforma em música. Cinco anos depois da estreia com Adeus Mundo Véio, o projeto liderado pelo cineasta e músico Diego da Costa apresenta o single Até Amanhã, faixa que rememora o último encontro do artista com o pai e inaugura a fase que levará ao segundo álbum, Sonora Fantasma te ama, previsto para setembro.

    A despedida que virou música

    Até Amanhã nasceu após a morte do pai de Diego, a partir da memória de uma despedida cotidiana, marcada pela frase que dá título à canção. Naquele momento, ainda havia a certeza de que eles se veriam novamente no dia seguinte. A música revisita justamente esse instante em que o “até amanhã” carrega a promessa de continuidade, sem que se saiba que não haverá outro encontro.

    “Essa canção fala de quando nos despedimos cotidianamente de alguém sem saber que não o veremos mais”, resume Diego, que vê na faixa um retrato da delicadeza e da brutalidade contidas em uma despedida comum.

    Logo após a perda, a frase “De onde sou, à noite estou só” passou a se repetir na cabeça do músico, pedindo um refrão. O primeiro impulso para a direção sonora veio após um show intimista do Yo La Tengo no Cine Joia, em São Paulo, quando Diego imaginou a música como uma espécie de encontro improvável entre o indie da banda americana e a brasilidade de Jorge Ben.

    Essa mistura, como ele mesmo admite, não aconteceu exatamente da forma pensada, mas serviu como ponto de partida para a construção da base de guitarra. A composição ganhou corpo de fato quando chegou às mãos do produtor Rafael Sartori, que criou arranjos e acrescentou baixo e sintetizadores, ampliando o clima de melancolia e presença brasileira que a faixa carrega.

    Letras pessoais e parcerias essenciais

    Mesmo com a estrutura montada, Diego ainda não se sentia plenamente satisfeito com a letra de Até Amanhã. A canção era tão pessoal que ele tinha dificuldade em encontrar palavras justas para alguns versos. A solução veio ao convidar Vinícius Cabral, músico das bandas Godofredo e The Innernettes, para dividir a autoria da versão final.

    Em menos de uma hora, Vinícius devolveu a letra com alterações que ajudaram a organizar o sentimento em palavras. Desde o início, o título da música já era Até Amanhã, mas Diego tinha dúvidas se deveria mantê-lo. Foi o parceiro quem o incentivou a abraçar o nome e ainda o lembrou de Noel Rosa, levando o compositor à canção homônima do artista.

    Durante a gravação, Diego apresentou a música a Lu Toller, responsável pelos arranjos vocais do álbum. De forma espontânea, Lu criou um arranjo com as vozes das manas do Vozeiral e, no improviso, incorporou ao coro a frase “até amanhã, se Deus quiser”, emprestando à faixa um diálogo direto com a tradição da música brasileira e com a canção de Noel.

    Entre indie, samba e bossa nova

    No arranjo de Até Amanhã, a Sonora Fantasma buscou um ponto de encontro entre o indie rock, o samba e a bossa nova. A intenção era que a presença brasileira estivesse integrada à tristeza da canção, sem suavizar ou amenizar o motivo doloroso que a originou. O resultado é uma faixa que transita entre a sensibilidade do indie, a cadência do samba e a atmosfera da bossa, mantendo o luto como eixo central.

    “Eu queria que essa canção tivesse um clima de samba, uma bossa nova, que trouxesse um elemento brasileiro para a nossa tristeza”, explica Diego. Para ele, Até Amanhã é provavelmente a mais dolorida das músicas do novo álbum, ainda que o próprio compositor deixe em aberto se essa sensação será a mesma para quem ouvir o disco inteiro.

    Do colapso do mundo às dores íntimas

    Sonora Fantasma te ama, novo álbum que chega em setembro, nasce em um contexto diferente daquele que deu origem ao disco de estreia, Adeus Mundo Véio. Se o primeiro trabalho foi criado no começo da pandemia, com letras que apontavam para política, capitalismo, tecnologia, morte e a esperança de transformação coletiva, o segundo volta o olhar para dentro, privilegiando perdas pessoais e lutos íntimos.

    As primeiras composições do novo repertório surgiram em 2022 e atravessaram três anos de mudanças, interrupções e experiências que afetaram diretamente a vida de Diego. O disco chegou a ser planejado para sair antes, mas a realidade acabou definindo outro ritmo. “Diversas questões pessoais atravessaram o projeto e só agora estamos conseguindo lançar esse novo álbum. Já tenho novas composições esperando para serem gravadas”, conta.

    Em Adeus Mundo Véio, lançado em 2021 pelo selo Abbey Roça com distribuição da Tratore, o compositor ainda acreditava, como ele mesmo define, “ingenuamente”, na possibilidade de mudar o planeta, alterar hábitos e se livrar da influência de bilionários e big techs. O que se revelou, segundo Diego, foi o contrário: um mundo dominado por essas forças.

    O álbum de estreia carregava a urgência do punk feito por conta própria, com referências ao rock alternativo do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Faixas como O Provável e o Possível, Vento do Leste e A Cigarra e a Formiga seguiram nos shows e ajudaram a manter a Sonora Fantasma em atividade, garantindo presença na seleção anual de melhores lançamentos do podcast Silêncio no Estúdio.

    Um novo disco mais intimista

    No segundo álbum, a inquietação permanece, mas se desloca do macro para o micro. Sonora Fantasma te ama é descrito por Diego como um trabalho muito mais intimista, centrado em perdas, dores pessoais, lutos, finais de relacionamentos e sensações de não pertencimento. A ideia de exílio aparece como tema, inclusive como exílio de si mesmo.

    Há também uma dimensão geracional e um certo bucolismo, ao cantar o campo, o contato com a terra e a relação do ser humano com a natureza. Essa aproximação com paisagens mais rurais complementa o movimento de afastamento do discurso de colapso global para uma reflexão sobre afetos e deslocamentos individuais.

    Brasil dos anos 1970 encontra o indie

    Na produção de Sonora Fantasma te ama, Diego retoma a parceria com Rafael Sartori, repetindo a estrutura do primeiro álbum: o músico assina as composições e divide a produção com Rafael, responsável pelos arranjos. Desta vez, porém, a dupla mira o trabalho de estúdio dos discos brasileiros da década de 1970, com uso de coros, metais, cordas e instrumentos acústicos, sem abrir mão de guitarras, sintetizadores e ruídos.

    As referências incluem nomes como Raul Seixas, Erasmo Carlos, Sá, Rodrix e Guarabyra e o universo do Clube da Esquina, cruzados com influências do indie e do rock alternativo. “Eu brinco que o álbum é uma mistura de Flaming Lips com Clube da Esquina. É uma redução que não trata da verdade do disco, mas talvez possa instigar alguém a querer escutá-lo”, comenta Diego, consciente das simplificações, mas interessado no convite que elas representam.

    Oito faixas entre campo, funk e fantasmas

    Sonora Fantasma te ama terá oito faixas. Vida no Campo, lançada como single em 2024, abrirá o álbum em uma nova versão. A gravação começa com viola caipira e, em seguida, se transforma com entrada de sintetizadores, uma passagem de clima industrial, coro feminino e um riff de violoncelo, evidenciando o diálogo entre tradição rural e experimentação sonora.

    O repertório inclui ainda O Brilho das Pedras, de Sá, Rodrix e Guarabyra, recriada com uma batida de funk nos versos, primeira versão registrada pela Sonora Fantasma. A escolha de revisitar a composição com esse atravessamento rítmico reforça a intenção de construir um disco brasileiro por caminhos diferentes, aproximando referências setentistas de linguagens contemporâneas.

    Até Amanhã, que chega como o single mais dolorido do álbum, concentra muitas das características desse novo momento da banda: a fusão entre indie e Brasil, a presença de coros e arranjos vocais elaborados, a parceria criativa com músicos como Rafael Sartori, Vinícius Cabral e Lu Toller e, sobretudo, a capacidade de transformar experiências pessoais em canções que falam de despedidas, luto e amor com delicadeza e força.

    Foto: Divulgação

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