O pequeno varejista brasileiro enfrenta um desafio que pesa diretamente no caixa: a dependência de crédito bancário para manter a operação pode custar até 38% ao ano. O dado, referente a operações de capital de giro com prazo de até 365 dias em 2025, revela um impacto significativo em um setor já pressionado por margens apertadas.
Enquanto isso, uma transformação silenciosa começa a redesenhar esse cenário. O avanço do embedded finance, ou serviços financeiros integrados, abre espaço para que empresas da própria cadeia passem a capturar valor que antes ficava concentrado no sistema bancário.
Crédito caro e dependência estrutural
A necessidade de capital de giro é parte central da rotina do varejo. É esse recurso que permite comprar estoque, manter prateleiras abastecidas e sustentar o intervalo entre vendas e pagamentos a fornecedores.
No entanto, ao recorrer aos bancos, o custo desse financiamento se torna elevado. No atacado distribuidor, esse impacto ganha escala: o setor movimentou R$ 616,6 bilhões em 2025 e atende mais de 1,18 milhão de pontos de venda pelo canal indireto.
Na prática, as distribuidoras já exercem parte desse papel financeiro. Elas vendem com prazo, assumem riscos, emitem boletos e acompanham a inadimplência. Ainda assim, o ganho financeiro dessas operações frequentemente fica fora da cadeia.
Dessa forma, o lojista paga juros ao banco, enquanto a distribuidora mantém o relacionamento comercial sem capturar integralmente o valor gerado.
Embedded finance ganha espaço
É nesse contexto que o embedded finance começa a ganhar relevância. A proposta é integrar serviços como crédito, pagamentos e cobrança diretamente à operação das empresas, eliminando intermediários e aumentando a eficiência financeira.
Segundo Letícia Moschioni, sócia da Finscale, as empresas já possuem um ativo valioso: o histórico real de comportamento dos clientes. “Quando a distribuidora vende com prazo, ela já está concedendo crédito. A diferença é que, sem estrutura, esse crédito fica invisível, mal precificado e muitas vezes capturado por terceiros”, afirma.
Em uma simulação, substituir uma linha bancária por uma estrutura interna pode representar economia equivalente a até 38% do valor tomado em um ano. Além disso, mesmo com taxas menores, o impacto positivo no caixa pode ampliar a capacidade de compra do lojista.
Mercado bilionário em expansão
O potencial desse modelo ajuda a explicar o interesse crescente. Estudos indicam que o embedded finance pode gerar R$ 24 bilhões em receita adicional até 2026 em setores como varejo, serviços e bens de consumo.
Além disso, a oferta de crédito embarcado pode alcançar R$ 83 bilhões. No segmento de distribuição B2B de alimentos, a base elegível para esse tipo de operação foi estimada em R$ 1,1 trilhão.
Assim, a lógica se torna clara: onde há vendas recorrentes, prazos e histórico de pagamento, existe também uma operação financeira em potencial.
Vantagem competitiva no cenário atual
O movimento ocorre em um ambiente econômico que valoriza eficiência. Com juros elevados e crédito mais seletivo, a capacidade de financiar melhor a cadeia pode se tornar um diferencial competitivo.
Para o varejista, isso significa acesso a crédito mais adequado e previsibilidade. Para a distribuidora, representa novas receitas e maior controle sobre o fluxo financeiro.
Por outro lado, o setor financeiro tradicional passa a dividir espaço com empresas não financeiras, que começam a atuar como plataformas de relacionamento financeiro.
“O banco continua tendo papel importante, mas ele não é mais o único caminho para organizar crédito e pagamentos. A empresa que conhece a cadeia, tem dados reais e consegue estruturar uma operação segura passa a disputar uma parte do valor que antes parecia naturalmente bancário”, afirma Letícia.
Portanto, em um mercado de centenas de bilhões de reais, a discussão evolui: mais do que saber se essas empresas podem oferecer serviços financeiros, a questão passa a ser quanto valor ainda está sendo perdido ao não internalizar essas operações.
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