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A Caixa de Sons Ancestrais transforma sonho, memória e cultura periférica em teatro musical contemporâneo

Foto: Divulgação

Espetáculo idealizado por Esther Dagápito reúne trap, maracatu e teatro musical em uma experiência sensível sobre ancestralidade, passagem e memória coletiva

Entre batidas de trap, tambores de maracatu e cenas carregadas de afeto, A Caixa de Sons Ancestrais surge como uma experiência cênico-musical que atravessa gerações e mistura referências da cultura popular brasileira com sonoridades urbanas contemporâneas. Idealizado por Esther Dagápito, o espetáculo transforma memória, ancestralidade e pertencimento em linguagem artística, reunindo diferentes artistas e colaboradores em uma construção coletiva.

A obra começou a tomar forma durante o processo de adoecimento da avó de Esther, a partir de sonhos recorrentes que atravessaram profundamente sua vivência emocional e criativa. O que inicialmente parecia uma experiência íntima acabou se transformando no ponto de partida para uma investigação artística sobre memória, continuidade e herança afetiva. Ao longo do desenvolvimento do espetáculo, a relação entre música, lembrança e ancestralidade passou a ocupar o centro da criação.

“Comecei a escrever A Caixa de Sons Ancestrais durante o processo de adoecimento da minha avó, depois de ter um sonho muito sereno onde sentia que a passagem dela estava se aproximando. De certa forma, criar essa obra me ajudou a elaborar esse momento antes mesmo dele acontecer”, afirma Esther Dagápito.

Foto: Divulgação

A artista conta que os sonhos continuaram atravessando o processo criativo e acabaram influenciando diretamente a construção dramatúrgica e musical do espetáculo.

“Em vários períodos ela voltava a me visitar em outros sonhos, e isso atravessou completamente a construção do espetáculo. A primeira versão nasceu como uma contação de história leve e amorosa, pensada para falar sobre passagem de forma sensível e esperançosa, especialmente para crianças, usando a música como ferramenta de conexão com quem amamos.”

Com o falecimento da avó acontecendo em paralelo ao desenvolvimento da obra, o processo ganhou ainda mais intensidade emocional e passou por uma expansão estética até chegar ao formato atual de teatro musical.

“Depois que minha vó partiu, eu estava justamente finalizando algumas das músicas da obra, então todo o processo acabou acontecendo com as emoções muito à flor da pele e com um tempo curto de construção. Agora estamos desenvolvendo a versão em teatro musical, que cresceu em escala e linguagem, mas continua preservando a intenção inicial: transformar memória, afeto e ancestralidade em encontro coletivo.”

Distante dos formatos tradicionais do teatro musical, a obra reúne produtores de trap, musicistas ligados ao maracatu e artistas da cena teatral em uma proposta que dialoga diretamente com vivências periféricas contemporâneas. A montagem cria pontes entre diferentes expressões culturais, conectando elementos afro-brasileiros, performance, musicalidade urbana e experiências territoriais em uma estética própria.

Foto: Divulgação

A artista Mary Morado, que anteriormente integrava o elenco como atriz e cantora, passa agora a atuar também como compositora, diretora de cena e assistente de roteiro e dramaturgia da montagem. Para ela, o espetáculo representa um encontro potente entre diferentes linguagens artísticas.

“Com anos de experiência no teatro musical e uma trajetória construída também na música urbana, como cantora e dançarina, vejo a Caixa dos Sons Ancestrais como uma oportunidade de unir diferentes vivências artísticas em um único espetáculo. Poder contribuir com a composição, movimento e interpretação dentro de uma narrativa que aborda memória, afeto e ancestralidade é uma forma de expandir minha pesquisa como artista, além de trabalhar em algo que acredito muito”, afirma Mary Morado.

Mais do que um espetáculo, A Caixa de Sons Ancestrais propõe uma experiência sensível e acessível, pensada para envolver crianças, jovens e adultos em torno de temas como passagem, memória coletiva e herança cultural. Em cena, os sons funcionam como arquivos afetivos capazes de atravessar o tempo e ressignificar as relações entre passado e presente.

Com uma abordagem intergeracional, o projeto destaca a potência criativa das periferias ao colocar no centro artistas e narrativas que reinventam o fazer teatral a partir de suas próprias referências culturais. O resultado é uma obra que une tradição e contemporaneidade sem perder a dimensão íntima e humana de sua origem.

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