O chamado tarifaço chinês já começa a produzir efeitos concretos no Brasil. Frigoríficos estão reduzindo abates, suspendendo embarques e concedendo férias coletivas diante do risco de ultrapassar a cota estabelecida pela China para a carne bovina brasileira.
Para o professor universitário e mestre em Negócios Internacionais André Charone, o problema vai além da tarifa. Segundo ele, a dependência brasileira de um único comprador amplia os riscos para toda a cadeia produtiva.
“O maior risco não está apenas no imposto cobrado pela China, mas na dependência brasileira de um único comprador”, explica André Charone.
A China fixou para o Brasil uma cota anual de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas. Dentro desse limite, a carne brasileira segue com a tarifa normal de importação. Acima dele, passa a ser aplicada uma sobretaxa adicional de 55 pontos percentuais, elevando a tributação total para cerca de 67%.
Cota praticamente esgotada
Os embarques realizados pelo Brasil até junho já alcançaram um volume equivalente ou muito próximo da cota disponível para todo o ano de 2026. Por isso, frigoríficos e analistas avaliam que o limite está praticamente comprometido.
Essa ultrapassagem, no entanto, pode ainda não aparecer integralmente nos dados oficiais chineses. O motivo é a diferença entre o momento em que o Brasil registra a exportação e o instante em que a China contabiliza a mercadoria desembaraçada em seus portos.
Como o transporte marítimo pode durar cerca de 40 dias, cargas já embarcadas podem chegar à China depois do preenchimento da cota e ser atingidas pela tarifa adicional. Assim, a pressão sobre o setor já é imediata, mesmo antes da atualização completa dos números oficiais.
Efeito na produção
Diante da incerteza, empresas do setor começaram a reduzir a produção, rever escalas e suspender temporariamente parte dos embarques. Dessa forma, o impacto atinge também os pecuaristas, que podem enfrentar menor compra de animais e pressão sobre o preço da arroba.
Parte da carne que deixaria de seguir para a China pode ser direcionada ao mercado interno. No entanto, isso não significa que o consumidor verá queda imediata nas prateleiras, já que há custos de transporte, energia, processamento, armazenamento, impostos e distribuição no caminho até o varejo.
“A pressão de queda pode aparecer primeiro no campo e demorar a chegar ao consumidor”, afirma Charone.
Dependência da China
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China. A cota definida para 2026 é cerca de 35% inferior ao volume comercializado no ano anterior.
Apesar de atingir também outros países, como Austrália, Argentina, Uruguai, Nova Zelândia e Estados Unidos, a medida pesa mais sobre o Brasil porque a China compra quase metade das exportações brasileiras de carne bovina.
Segundo o especialista, relações comerciais são guiadas por interesses econômicos. Portanto, a necessidade de diversificação ganha ainda mais relevância no cenário atual.
Busca por novos destinos
O Brasil pode ampliar vendas para mercados como Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e outros países asiáticos. Mesmo assim, nenhum desses destinos tem, isoladamente, capacidade semelhante à da China.
Além disso, a abertura de novos mercados depende de negociações sanitárias, habilitação de frigoríficos, adaptação de produtos e estrutura logística. Por isso, o processo não traz alívio imediato.
Para André Charone, o episódio reforça uma lição importante para o comércio exterior brasileiro: diversificar mercados precisa ser uma estratégia permanente.
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