O status de “craque” já não é, por si só, garantia de desempenho. Em um esporte cada vez mais orientado por métricas, a reputação construída ao longo da carreira divide espaço com indicadores que revelam eficiência, regularidade e potencial em tempo real. Essa mudança de lógica ganha força à medida que a análise de dados se expande no ambiente competitivo.
Mercado em expansão e paradoxo dos dados
A dimensão econômica do movimento é expressiva. O mercado global de sports analytics deve alcançar US$ 7 bilhões em 2026, ante US$ 5,7 bilhões em 2025, segundo estimativa da Grand View Research. A projeção é chegar a US$ 23,1 bilhões em 2033, impulsionado pelo uso de ferramentas para analisar equipes e jogadores, acompanhar lesões e otimizar treinamentos.
No entanto, a multiplicação de métricas começa a produzir um paradoxo. Um estudo publicado em julho de 2026 na revista científica Frontiers in Sports and Active Living chama o fenômeno de analytics-practice gap, ou lacuna entre análise e prática. O trabalho aponta que a expansão de sistemas de rastreamento, sensores, plataformas de vídeo e modelos analíticos tornou o esporte cada vez mais rico em dados, mas isso não se traduziu automaticamente em melhores decisões dos treinadores.
Segundo o estudo, indicadores podem descrever com precisão o que aconteceu durante uma partida, mas não necessariamente dizem o que deve ser feito a partir daquela informação. Decisões sobre treinamento, preparação tática, seleção de atletas e gestão de carga continuam dependendo também de contexto, experiência e interpretação.
Equilíbrio entre números e olhar técnico
Ana Paula Zandona, treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance, trabalha exatamente nesse ponto de equilíbrio. Ex-atleta no Brasil e nos Estados Unidos, ela atuou como levantadora na NCAA Division I e construiu carreira como treinadora em programas universitários americanos.
No trabalho com equipes, ela utiliza históricos de desempenho para identificar padrões que se repetem entre os times que avançam nas competições. A análise pode considerar diferentes temporadas e transformar essas referências em objetivos para o treinamento. “Os dados permitem identificar o que os times que chegam mais longe têm em comum. Quando um indicador se repete ao longo de várias temporadas, ele deixa de ser apenas um número e passa a servir como referência para definir metas e orientar o treinamento”, explica Ana.
A lógica também pode ser aplicada à avaliação individual. Em vez de julgar um atleta apenas pela impressão deixada em uma partida ou pelo histórico construído ao longo da carreira, treinadores podem comparar o desempenho atual com médias da posição, evolução durante a temporada e indicadores de outros jogadores.
Assim, os números passam a desafiar um dos ativos mais tradicionais do esporte: a reputação. Ter sido decisivo, acumular títulos ou carregar o status de craque não garante o melhor desempenho no momento presente para determinada função. Para Ana, porém, a estatística não pode ser interpretada fora do contexto.
O número mostra o que o atleta está entregando naquele momento, mas não conta toda a história. É preciso entender o contexto, observar o que ainda pode ser desenvolvido e cruzar aquilo que os dados mostram com o olhar técnico do treinador.
No recrutamento universitário, a treinadora também busca atletas que ainda tenham margem de desenvolvimento. O desempenho apresentado naquele momento faz parte da avaliação, mas não determina sozinho até onde aquela pessoa pode chegar.
Da análise orientada por dados à decisão
A necessidade de interpretação também aparece no estudo publicado pela Frontiers. O trabalho defende uma mudança de uma análise orientada primeiro pelos dados para uma lógica orientada primeiro pela decisão: antes de escolher quais métricas observar, é preciso definir qual problema o treinador pretende resolver. Para os autores, o valor da análise esportiva depende menos da capacidade de produzir mais informações e mais de conseguir conectá-las a mudanças concretas no treinamento e na preparação dos atletas.
Um mesmo indicador, afinal, pode assumir significados diferentes. Uma queda de desempenho pode estar relacionada ao atleta, mas também à função desempenhada na equipe, à estratégia adotada, ao nível dos adversários ou a mudanças na própria dinâmica do jogo.
Impacto na percepção do atleta
A discussão ganha outra dimensão quando os números deixam de influenciar apenas as decisões dos treinadores e passam a interferir na forma como os próprios atletas enxergam o desempenho.
Ana chama atenção especialmente para esse efeito entre jovens do esporte universitário. Em sua experiência, transformar cada fundamento em indicador exige cuidado para que a ferramenta usada para desenvolver o atleta não passe a definir a percepção que ele tem sobre o próprio valor. “Quando tudo vira número, existe o risco de o atleta começar a acreditar que seu valor está naquela estatística. Os dados são importantes para orientar decisões e mostrar onde podemos evoluir, mas não podem substituir a capacidade do treinador de enxergar a pessoa e o contexto por trás do desempenho”, diz.
A transformação, portanto, não aponta para o fim do chamado “olhômetro”. O movimento é de combinação entre aquilo que pode ser medido e aquilo que depende de interpretação: os dados ajudam a mostrar quando um nome consagrado já não sustenta o mesmo rendimento e quando um atleta menos visível já entrega mais do que os holofotes registram. O desafio está em não deixar que a busca por objetividade produza uma nova distorção: acreditar que tudo o que importa no desempenho esportivo cabe em uma métrica.
Serviço
- Perfil: Ana Paula Zandona é treinadora de voleibol e especialista em desenvolvimento de atletas e análise de performance
- Experiência: Ex-atleta no Brasil e nos EUA; levantadora na NCAA Division I; treinadora em programas universitários americanos
- Formação: Mestre em Administração Esportiva e Estudos do Esporte; atualmente cursa MBA em Business Analytics
- Atuação: Planejamento de treinos, recrutamento, desenvolvimento técnico e análise de desempenho com dados e ferramentas especializadas
Foto: Divulgação
