As vendas de roupas e calçados avançaram em maio, porém o resultado acumulado, a confiança das famílias e um indicador privado mostram que ainda é cedo para falar em recuperação consistente.
O varejo de vestuário ganhou fôlego em maio, mas a fotografia positiva vem cercada de ressalvas. O volume vendido por lojas de tecidos, roupas e calçados subiu 3,1% em relação a abril e 3,5% na comparação com maio de 2025, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE. Foi o maior avanço mensal entre as atividades pesquisadas. No acumulado do ano, no entanto, o setor ficou praticamente estável, com alta de 0,1%. Em 12 meses, ainda registrou queda de 0,5%.
O contraste importa porque separa uma melhora efetiva de uma recuperação consolidada. Maio foi bom, mas não apagou a fraqueza anterior nem garantiu continuidade. Para marcas, lojas e consumidores, o dado sugere um mercado que voltou a se movimentar sem recuperar, por enquanto, a segurança necessária para uma expansão mais regular.
Um mês forte dentro de uma trajetória irregular
A sequência de 2026 ajuda a dimensionar o salto. Na comparação com os mesmos meses de 2025, o segmento avançou 1,4% em janeiro, caiu 5,8% em fevereiro, cresceu 2,9% em março, recuou 2,8% em abril e voltou a subir 3,5% em maio. Em vez de uma linha de retomada, os números desenham uma alternância de ganhos e perdas.
O desempenho também foi melhor que o resultado geral do varejo naquele mês. O comércio variou apenas 0,1% ante abril e cresceu 0,4% na comparação anual. Ainda assim, a diferença entre o resultado setorial e o agregado não significa que a moda esteja imune ao ambiente econômico. Roupas e calçados são despesas que podem ser antecipadas em datas sazonais, adiadas quando o orçamento aperta ou concentradas em poucas compras.
Essa elasticidade explica por que uma alta expressiva pode conviver com um acumulado fraco. Também recomenda cautela com explicações únicas, como clima, promoções ou calendário, quando os dados públicos não isolam o peso de cada fator.
O presente melhorou mais do que o futuro
A percepção das famílias reforça essa leitura. Em junho, o Índice de Confiança do Consumidor da FGV IBRE ficou praticamente estável, aos 88,7 pontos. A avaliação sobre a situação atual avançou 0,9 ponto e atingiu o maior nível desde outubro de 2014, enquanto o índice de expectativas caiu 0,9 ponto.
Dois componentes ajudam a entender a divisão. A avaliação das finanças futuras da família recuou 1,7 ponto, e o indicador de compras previstas de bens duráveis caiu 3 pontos. Vestuário não é um bem durável, portanto essa medida não descreve diretamente a venda de roupas. Ela funciona como termômetro do espaço emocional e financeiro para gastos que podem esperar.
No comércio, a melhora também veio com freio. A confiança do setor subiu 0,9 ponto, para 85,1, mas o componente de demanda atual caiu 1,9 ponto. Na média trimestral, a confiança recuou 2,6 pontos. O lojista enxerga algum alívio no mês sem identificar uma mudança firme de patamar.
Preços desaceleram, mas a compra precisa fazer sentido
O comportamento dos preços oferece outra peça do quadro. O IPCA de junho foi de 0,16%, e o grupo Vestuário variou 0,17%, depois de ter subido 0,62% em maio. Houve desaceleração, não redução de preços. Ao mesmo tempo, alimentação, habitação e outros gastos recorrentes continuam disputando o mesmo orçamento.
Nesse ambiente, valor não é apenas o menor número na etiqueta. Uma compra pode ser avaliada por caimento, material, possibilidade de combinação e frequência de uso. Ao comparar uma categoria como calça feminina, por exemplo, modelagem e versatilidade podem pesar tanto quanto a novidade. Essa conta ajuda a explicar por que a opção mais barata nem sempre é percebida como a de melhor custo-benefício.
Uma pesquisa proprietária da McKinsey com consumidores brasileiros encontrou esse aparente paradoxo no primeiro trimestre: 90% dos entrevistados disseram ter adotado ao menos uma estratégia de troca por alternativa mais econômica, mas vestuário continuou como principal categoria de gasto de indulgência. Como a página pública não apresenta a ficha metodológica completa, o resultado deve ser lido como sinal de comportamento, não como retrato definitivo da população.
Indicadores diferentes contam partes diferentes da história
Um contraponto mais recente veio do Índice Cielo do Varejo Ampliado. Segundo reportagem da Reuters, o faturamento real do varejo caiu 2,8% em junho ante o mesmo mês de 2025 e acumulou retração de 2,2% no primeiro semestre. Bens duráveis e semiduráveis, grupo amplo no qual aparecem categorias discricionárias, recuaram 3,4% no mês.
Os números não anulam o avanço do vestuário medido pelo IBGE. O dado oficial isola uma atividade e, por enquanto, chega até maio. Já o ICVA acompanha transações em 18 setores da base da empresa e aplica ajustes estatísticos para mudanças nos meios de pagamento, conforme a metodologia divulgada pela Cielo. As coberturas e ponderações são diferentes, e o resultado de junho não fornece uma taxa exclusiva para roupas.
Lidos em conjunto, os levantamentos mostram que a melhora de uma categoria pode ocorrer dentro de um consumo agregado ainda fraco. Isso é mais informativo do que escolher um índice e descartar o outro: o vestuário teve um bom maio, enquanto o ambiente em torno da compra permaneceu instável.
Recuperação dependerá de continuidade
Para que o salto deixe de ser episódico, os próximos dados precisam confirmar crescimento em janelas mais longas. Também será necessário observar se a melhora da situação atual chega às expectativas das famílias e à demanda percebida pelos lojistas.
Até lá, a leitura mais segura é que o consumidor não desistiu de comprar moda, mas elevou a exigência para autorizar o gasto. Há espaço para desejo e renovação do guarda-roupa, desde que a peça encontre lugar num orçamento pressionado e apresente utilidade reconhecível. Maio abriu essa possibilidade. Os meses seguintes dirão se ela se transforma em tendência ou permanece como um respiro.
