Há uma mudança silenciosa que transforma profundamente a dinâmica familiar: o momento em que os filhos passam a cuidar dos próprios pais. Cada vez mais frequente no Brasil, esse processo acompanha o envelhecimento da população e impõe desafios que vão muito além da reorganização da rotina.
É sobre essa realidade que o engenheiro e gestor Clovis Felisberto Salomon decidiu falar. Após anos acompanhando o envelhecimento da mãe, Olga Felisberto Salomon, ele transformou a experiência em um livro que será lançado em agosto, com o objetivo de acolher e orientar famílias que vivem situações semelhantes.
A inversão de papéis dentro de casa
O ponto de virada, para muitas famílias, acontece de forma inesperada. Um acidente, uma doença ou a perda de autonomia podem exigir decisões rápidas e mudanças profundas. De repente, filhos assumem responsabilidades como gestão financeira, decisões médicas e organização dos cuidados diários.
No caso de Clovis, essa transição começou antes mesmo de um episódio mais grave. Em 2015, sua mãe passou por uma cirurgia para retirada de um câncer basocelular no rosto, aos 84 anos. O período pós-operatório foi marcado por uma დეპressão significativa, que exigiu atenção constante da família.
Existe uma outra realidade que afeta milhões de brasileiros: a dos filhos que assumem, muitas vezes sem preparo, a responsabilidade pelo cuidado de quem sempre cuidou deles.
A partir desse momento, Clovis e a irmã passaram a auxiliar na administração da casa, das finanças e na decisão de contratar uma acompanhante em tempo integral. Assim, a rotina familiar foi sendo redesenhada gradualmente.
Entre autonomia e cuidado
Um dos episódios que marcaram essa mudança foi quando Olga, que sempre foi independente, pediu ao filho que assumisse parte da gestão financeira. Ainda assim, Clovis optou por atuar como assistente, preservando a autonomia da mãe sempre que possível.
Segundo ele, esse é um dos maiores desafios do processo: cuidar sem apagar a identidade de quem está sendo cuidado. “A dependência não apaga quem a pessoa é”, afirma. Portanto, manter a individualidade e respeitar a história de vida se torna parte essencial do cuidado.
O peso emocional da responsabilidade
Além das questões práticas, a experiência é atravessada por sentimentos complexos. Gratidão, amor e senso de dever convivem com insegurança, medo e, muitas vezes, tristeza. Para Clovis, esse foi o aspecto mais difícil de enfrentar.
“Uma tristeza profunda em ver alguém cheio de vida se transformar em uma pessoa mais frágil”, relata. Ainda assim, ele compreendeu que assumiria o papel de cuidador principal, lidando com decisões difíceis e responsabilidades constantes.
Sem manual pronto
Não existe uma fórmula única para lidar com essa fase. Cada família constrói seu próprio caminho, de acordo com suas possibilidades e limitações. No entanto, Clovis destaca a importância de se preparar em diferentes frentes.
Segundo ele, é fundamental estar preparado operacionalmente, para entender as demandas de cuidados; financeiramente, para sustentar a estrutura necessária; e emocionalmente, para tomar decisões sem carregar constantemente culpa ou medo.
Além disso, ele ressalta que o papel de cuidador principal precisa ser assumido por alguém, com o apoio dos demais familiares. Dessa forma, a responsabilidade pode ser compartilhada, evitando sobrecarga.
Da experiência ao livro
As vivências acumuladas ao longo dos anos deram origem ao livro Todo Tempo é para Viver, que será lançado em agosto. A obra reúne relatos, reflexões e aprendizados sobre os desafios emocionais, familiares e práticos desse processo.
A proposta é oferecer acolhimento a quem enfrenta essa realidade e muitas vezes se sente despreparado. Segundo o autor, ainda há poucos espaços dedicados a discutir o papel dos cuidadores familiares, que lidam com demandas crescentes sem preparo prévio.
Ao revisitar sua própria trajetória, Clovis também reconhece que parte do que aprendeu sobre cuidado veio da própria mãe, que dedicou anos da vida a ajudar outras pessoas, inclusive em trabalhos voluntários após ingressar no Alcoólicos Anônimos em 1990.
Um desafio que cresce no Brasil
Especialistas apontam que o envelhecimento da população brasileira tornará situações como essa cada vez mais comuns. Portanto, o tema deixa de ser apenas uma questão privada e passa a ocupar também o debate social.
Ao compartilhar sua história, Clovis busca ampliar essa conversa e contribuir para que outras famílias enfrentem esse momento com mais informação, consciência e acolhimento. “Não estamos apenas cuidando de alguém. Estamos encontrando novas formas de continuar convivendo e demonstrando afeto”, conclui.
Serviço
- Livro: Todo Tempo é para Viver
- Lançamento: agosto
- Autor: Clovis Felisberto Salomon
- Instagram: @clovisfsalomon
Foto: Divulgação
