A arte como linguagem, identidade e caminho de inclusão ganha espaço no Rio de Janeiro com a segunda edição de “A Arte entre Tons e Sons”. Realizada pelo Instituto SETAS, a mostra cultural acontece de 15 a 30 de setembro, no Espaço Cultural do Trem do Corcovado, e reúne obras autorais de pessoas com surdez e neurodivergentes usuárias de implante coclear.
Gratuita e aberta a todos os públicos, a exposição integra as ações do Setembro Azul, mês dedicado à valorização da comunidade surda, à conscientização sobre a surdez e à promoção da acessibilidade e da inclusão. Dessa forma, a iniciativa coloca o protagonismo dos artistas no centro da experiência.
Arte como forma de expressão
“A Arte entre Tons e Sons” faz parte do projeto “Fala Falada”, iniciativa que busca ampliar possibilidades de expressão, comunicação, autonomia e participação social por meio da arte. As obras apresentadas foram criadas durante oficinas de artes plásticas e partem das experiências, percepções e vivências dos próprios participantes.
Mais do que apresentar produções visuais, a mostra revela diferentes formas de comunicar histórias, sentimentos e olhares sobre o mundo. As peças não dependem da palavra falada para estabelecer diálogo com o público e reafirmam a potência da arte como território de pertencimento.
Assim, cada obra carrega a marca singular de quem a concebeu. O percurso criativo foi construído a partir da experimentação, da sensorialidade e de processos de criação que preservam a autoria dos participantes das oficinas.
Autoria no centro da exposição
O protagonismo é um dos pilares da mostra. Todas as obras expostas são assinadas pelos próprios participantes, reconhecidos como autores de uma produção construída em diálogo com suas vivências e formas particulares de expressão.
Durante o processo criativo, os artistas receberam orientação técnica de profissionais de diferentes áreas das artes. A atuação dos orientadores foi concentrada no direcionamento e na qualificação das produções, sem interferir na liberdade criativa ou na autoria de cada participante.
Participam desse acompanhamento Maria Adélia, atriz e artista plástica formada em Belas Artes pela UFPR; Graça Lima, artista visual e ilustradora, doutora em Artes Visuais pelo Programa de Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFRJ; Marise Nogueira, atriz formada em Artes Cênicas pela UNIRIO, mascareira e pesquisadora da linguagem do teatro de formas animadas; e Vitória Alves, graduanda em Artes Visuais, com habilitação em Gravura, pela Escola de Belas Artes da UFRJ.
Dessa maneira, a exposição evidencia a criação artística como espaço legítimo de autonomia e reconhecimento. A proposta valoriza não apenas o resultado final das oficinas, mas também o processo vivido por cada artista até a construção de sua obra.
Inclusão e transformação social
Para o Dr. Alonço Viana, fundador do Instituto SETAS, a segunda edição de “A Arte entre Tons e Sons” representa um marco simbólico do trabalho desenvolvido pela instituição em torno da inclusão e da ampliação de oportunidades para pessoas com surdez e neurodivergentes usuárias de implante coclear.
“Essa exposição é a prova viva de que a arte é uma linguagem universal e que, quando damos espaço e escuta, as pessoas com surdez e neurodivergentes encontram formas potentes de se expressar e se comunicar. Cada obra ali exposta representa uma conquista de autonomia, autoestima e pertencimento. É a arte cumprindo seu papel de inclusão e transformação social.”
A declaração reforça a dimensão social da iniciativa. Ao abrir espaço para a autoria e para a circulação dessas obras, o Instituto SETAS propõe um olhar que reconhece artistas com surdez e neurodivergentes como produtores de cultura, com repertórios e linguagens próprias.
Por outro lado, a mostra também convida o público a refletir sobre acessibilidade cultural. A exposição amplia a visibilidade de trajetórias que nem sempre encontram espaço nos circuitos tradicionais de arte e valoriza a comunicação em suas diversas formas.
Obras também geram renda
Além do valor artístico e simbólico, “A Arte entre Tons e Sons” tem um impacto social direto. As obras produzidas nas oficinas poderão ser comercializadas, permitindo a geração de renda para os próprios artistas.
A possibilidade de comercialização fortalece a autonomia financeira dos participantes e amplia seu reconhecimento como produtores de cultura. Portanto, a exposição cria uma ponte entre o processo artístico, a valorização pública das obras e novas possibilidades de independência para seus autores.
O trabalho do Instituto SETAS
O Instituto SETAS nasceu oficialmente em 2023, embora sua história tenha começado anteriormente, a partir do encontro entre pessoas de diferentes áreas que compartilham o desejo de ampliar o acesso, a autonomia e as possibilidades de comunicação de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
A instituição foi constituída a partir da escuta de necessidades reais de pessoas usuárias de implante coclear, especialmente aquelas acompanhadas pelo Sistema Único de Saúde. Assim, o Instituto SETAS reúne saúde, educação, assistência social e cultura para criar caminhos de expressão, comunicação e participação social.
Com a segunda edição da mostra, o Instituto reafirma a arte como ferramenta de cuidado, criação e inclusão. Por fim, “A Arte entre Tons e Sons” convida o público a conhecer produções autorais que transformam experiências individuais em novas formas de diálogo com a cidade.
Serviço
- Exposição: “A Arte entre Tons e Sons” — 2ª edição
- Data: de 15 a 30 de setembro
- Local: Espaço Cultural do Trem do Corcovado
- Endereço: Rua Cosme Velho, 513, Cosme Velho
- Horário de funcionamento do Trem do Corcovado: das 8h às 17h
- Entrada: gratuita
- Realização: Instituto SETAS
Foto: Divulgação



