A força da obra de Clarice Lispector volta aos palcos cariocas com uma montagem que aposta na intimidade e na potência do universo feminino. “Se Eu Fosse Eu – Clarices”, do grupo ATA – Agrupação Teatral Amacaca, entra em cartaz entre os dias 3 e 26 de julho no teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio.
Inspirado em três contos da autora — “O Ovo e a Galinha”, “Miss Algrave” e “Perdoando Deus” —, o espetáculo propõe uma imersão sensível em temas como maternidade, descoberta do prazer e espiritualidade. Dessa forma, a montagem constrói um diálogo direto com questões ainda atuais e profundamente humanas.
Uma cozinha, muitas Clarices
Em cena, Camila Guerra, Juliana Drummond e Rosanna Viegas permanecem no palco durante toda a apresentação. O espaço cênico se transforma em uma cozinha, onde, gradualmente, um bolo é preparado. No entanto, os ingredientes vão além do que está à mesa: são reflexões, memórias e inquietações.
Assim, enquanto cozinham, as atrizes dialogam com diferentes facetas de Clarice, explorando tabus e contrastes com ironia e sensibilidade. A proposta conecta o cotidiano ao existencial, em uma construção que mistura simplicidade e profundidade.
A escolha do ambiente não é aleatória. Clarice Lispector escrevia em casa, criando os filhos enquanto produzia sua obra. Essa dimensão cotidiana é resgatada no espetáculo, que transforma ações comuns em potentes metáforas sobre a vida.
Processo criativo e vivências reais
A origem do espetáculo remonta a um experimento cênico. Juliana Drummond e Rosanna Viegas dirigiram Camila Guerra em uma cena de “O Ovo e a Galinha” durante um sarau. A partir dessa experiência, novas camadas foram incorporadas com outros textos da autora.
Além disso, o processo de criação foi marcado por um método singular. Durante os ensaios, o grupo utilizava o livro “Todos os Contos” como uma espécie de guia. “Nós abríamos o livro no início dos ensaios como um oráculo do dia”, relembra Rosanna Viegas.
Outro elemento importante foi a realização de oficinas com mulheres em situação de vulnerabilidade no Distrito Federal. Essas experiências contribuíram diretamente para a construção da dramaturgia, ampliando o olhar da montagem.
Trajetória e reconhecimento
Desde a estreia em maio de 2023 na Caixa Cultural de Brasília, o espetáculo vem construindo uma trajetória consistente. Em 2024, passou pelo Sesc Garagem e recebeu indicações ao Prêmio Sesc Mais Cultura.
Já em 2025, integrou a programação do Espaço Cultural Renato Russo. No Rio de Janeiro, a peça também já esteve em cartaz no CCBB RJ durante a mostra Amacaca em Trânsito DF-RJ.
Em 2026, o reconhecimento se ampliou com indicações em seis categorias no 4º Festival Dulcina, incluindo espetáculo, direção e dramaturgia. Juliana Drummond foi premiada como Melhor Atriz.
Sobre a companhia
Fundada em 2011 por Hugo Rodas, a ATA – Agrupação Teatral Amacaca nasceu a partir de um projeto da Universidade de Brasília. Desde então, a companhia se destaca pela integração entre teatro, música e dança.
Ao longo dos anos, o grupo acumulou prêmios e realizou apresentações em diferentes capitais brasileiras. Após a morte de Rodas, em 2022, a companhia manteve sua produção ativa, com novos espetáculos e propostas artísticas.
“Se Eu Fosse Eu – Clarices” integra esse momento de continuidade e reinvenção, reforçando a identidade do coletivo e sua conexão com temas contemporâneos.
Serviço
- Espetáculo: “Se Eu Fosse Eu – Clarices”
- Temporada: de 03 a 26 de julho de 2026
- Dias e horários: sextas, sábados e domingos, às 19h
- Local: Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241 – Centro)
- Metrô: Cinelândia
- Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
- Redes sociais: @claricescriativas e @agrupacaoteatralamacaca
Foto: Yasmin Veloso, Diego Bresani e Cristiano Costa

