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    Livro resgata primeiros anos de Maria Bethânia

    06/01/2026Nenhum comentário Cultura
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    Obra de Paulo Henrique de Moura analisa início da trajetória de Maria Bethânia e será lançada em 17 de janeiro na Tropicália Discos.

    Estudo sobre a formação de uma intérprete

    O livro “Maria Bethânia, primeiros anos – da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro” revisita o início da carreira da artista. A obra é assinada pelo jornalista e pesquisador Paulo Henrique de Moura e resulta de sua dissertação de mestrado na USP, defendida em 2024. O lançamento será em 17 de janeiro, às 15h, na Tropicália Discos, no Rio de Janeiro.

    Reconhecida por seu estilo pessoal e intransferível, Maria Bethânia inspira pesquisas acadêmicas há décadas. Sua obra, atravessada por música, poesia, religiosidade, dramaturgia e gesto, já motivou dissertações, teses e publicações. Além disso, rendeu à cantora diversos títulos de Doutora Honoris Causa.

    Moura se debruça sobre os primeiros anos da trajetória profissional da intérprete. O recorte destaca a passagem da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro. Dessa forma, o estudo ilumina um período decisivo para a construção de sua linguagem artística.

    Da Bahia ao Rio e a noite de “Carcará”

    O livro analisa o momento em que Bethânia deixa Salvador rumo ao Rio de Janeiro, no início de 1965. Ela viaja para fazer um teste para substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”. O musical, escrito por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes, com direção de Augusto Boal, foi um marco do teatro político.

    Em plena ascensão da ditadura militar, “Opinião” enfrentou o regime e denunciou mazelas sociais do país. Na estreia de Bethânia, no teatro do Shopping Center Copacabana, ela dividiu o palco com João do Vale e Zé Kéti. Naquela noite histórica, sua interpretação de “Carcará” impressionou público e crítica.

    A canção, de João do Vale e José Cândido, ganhou intensidade inédita na voz da jovem baiana. A imagem da “águia do sertão” assumiu nova força simbólica. Assim, Bethânia se firmou como ícone de liberdade e resistência na música popular brasileira.

    Teatro político e embriões da Tropicália

    Em 1965, sob direção de Boal, Bethânia participou de outros dois espetáculos de caráter político. Em “Arena Canta Bahia”, esteve ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa (então Maria da Graça), Tom Zé e Jards Macalé. No mesmo ano, protagonizou “Tempo de Guerra”, peça escrita por Boal especialmente para ela, inspirada em textos de Bertolt Brecht.

    A pesquisa de Moura também revisita os espetáculos coletivos encenados no Teatro Vila Velha, em Salvador, em 1964. Entre eles, “Nós, Por Exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, apontados como embriões da futura Tropicália. Esses trabalhos ajudam a entender o ambiente criativo em que Bethânia se formou.

    Para reconstruir esse percurso, o autor consultou o acervo documental do Teatro Vila Velha. Ele resgatou registros como a crítica de Carlos Coqueijo, publicada no Jornal da Bahia. Nela, o jurista e cronista exaltava a jovem artista como um dos maiores nomes do canto feminino no Brasil.

    Mora na Filosofia e a fusão entre música e teatro

    O livro dedica atenção ao espetáculo “Mora na Filosofia”, dirigido por Caetano Veloso em 1964. Nele, Bethânia já demonstrava rara compreensão cênica. O cenário, que representava uma favela carioca, fora concebido originalmente para a peça “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gianfrancesco Guarnieri.

    A cenografia acabou incorporada ao show por afinidade temática. Para Moura, o episódio evidencia como Bethânia, ainda em Salvador, já pensava sua arte de forma híbrida. A fusão entre música e teatro se mostrava central em sua construção artística.

    Essas conexões com a dramaturgia aparecem como eixo da análise. O estudo revela a cantora como artista completa desde os primeiros passos. Assim, reforça a ideia de que o palco sempre foi espaço de invenção para Bethânia.

    Depoimentos inéditos e vigilância da ditadura

    A pesquisa reúne depoimentos inéditos de nomes próximos à trajetória da cantora. Entre eles, Rodrigo Velloso, irmão de Bethânia, Gilberto Gil, Jards Macalé, Djalma Corrêa (1942–2022), Roberto Santana, Thereza Eugênia, Edy Star e da própria Maria Bethânia. Esses relatos ajudam a reconstituir processos criativos de espetáculos sem registros audiovisuais completos.

    O estudo também traz documentos inéditos que comprovam a vigilância de órgãos de repressão da ditadura militar sobre a artista. A atenção se devia à sua participação em espetáculos de viés político e ao apoio a causas sociais. Mesmo sob monitoramento, Bethânia seguiu afirmando sua voz em cena.

    Após o impacto de “Opinião”, a cantora se afastou por um tempo de “Carcará” para evitar o rótulo de “cantora de protesto”. No entanto, continuou traduzindo sentimentos e contradições do povo brasileiro em sua arte. A permanência dessa voz crítica e emotiva é um dos focos do livro.

    Uma trajetória que se confunde com a história do país

    O trabalho de Paulo Henrique de Moura reafirma Bethânia como intérprete que faz da palavra um corpo vivo. Para o autor, o palco se torna espaço de reinvenção constante. Sua voz ecoa liberdade, emoção e pensamento crítico.

    “Escrever sobre os primeiros anos de Bethânia é revisitar um Brasil que também buscava se compreender”, afirma o pesquisador. A passagem da artista pelo teatro político e pelos palcos da Bahia revela uma criadora já consciente da força simbólica da palavra e do gesto. A pesquisa tenta recuperar esse momento fundador.

    O livro mostra como a arte de Bethânia se entrelaça com a história do país. Ao iluminar seus primeiros passos, a obra amplia a compreensão sobre o teatro musical brasileiro. Dessa maneira, oferece material de referência para pesquisadores, fãs e interessados em cultura.

    Sobre o autor

    Paulo Henrique de Moura é jornalista e mestre em Estudos Culturais pela USP. Especialista em Mídia, Informação e Cultura pelo CELACC (ECA/USP), atua como assessor de imprensa de artistas como Alaíde Costa, Benito Di Paula, Claudette Soares, Eliana Pittman e Maria Alcina. Também é criador e diretor artístico do selo fonográfico Companhia de Discos do Brasil.

    Professor no Centro Universitário Belas Artes desde 2013, lecionou ainda no Senac-SP e em instituições como Santa Marcelina, UNIPAR, IED e Escola Panamericana. Com mais de 20 anos de carreira, reúne experiências em veículos de comunicação, agências, fundações e órgãos públicos. Sua trajetória combina prática jornalística, pesquisa e atuação no mercado cultural.

    Serviço – Lançamento do livro

    Título: Maria Bethânia, primeiros anos – da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro

    Autor: Paulo Henrique de Moura

    Ano: 2026

    ISBN: 978-65-86903-58-4

    Formato: 14 x 21 cm

    Páginas: 206

    Editora: Letra e Voz

    Preço: R$ 68

    Disponível em: www.letraevoz.com.br

    Lançamento: 17 de janeiro de 2026 (sábado), às 15h

    Local: Tropicália Discos

    Endereço: Rua Sorocaba, 122 – Rio de Janeiro

    Entrada: gratuita

    Livro resgata primeiros anos de Maria Bethânia
    Foto: Divulgação
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    Foto: Divulgação
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