Mais de 60 anos depois de sua estreia no Teatro de Arena, um dos textos fundadores do teatro político brasileiro volta aos palcos em nova roupagem. “Revolução na América do Sul”, de Augusto Boal, estreia em temporada no Teatro Poeirinha entre 8 de setembro e 21 de outubro, com sessões às terças e quartas-feiras, sempre às 20h.
A montagem é assinada por Wellington Fagner e tem realização do Instituto Augusto Boal. Além de revisitar o texto clássico, a direção propõe uma reinterpretação que dialoga diretamente com o contexto atual, sem perder a essência da crítica social que marcou a obra original.
Da leitura à turnê internacional
O projeto começou a ganhar forma em 2019, quando a psicanalista Cecília Boal, viúva de Augusto Boal e à frente do instituto dedicado a preservar seu legado, assistiu a uma leitura da peça dirigida por Fagner. Entre os convidados estava o diretor Aderbal Freire-Filho, que manifestou o desejo de levar a montagem para o Teatro Poeira.
No entanto, a pandemia mudou os planos, e a peça estreou primeiro no formato on-line, conquistando uma indicação ao 16º Prêmio APTR na categoria Jovem Talento-Elenco. Em seguida, o espetáculo ganhou a estrada, com apresentações em diferentes cidades do Rio de Janeiro e uma turnê por Portugal, até chegar agora à sua primeira temporada no Poeirinha.
A saga de Zé da Silva
“Revolução na América do Sul” foi uma das primeiras peças nacionais a colocar a classe trabalhadora no centro da cena sob a ótica da luta de classes. A montagem acompanha a saga do operário José da Silva, um representante do povo em busca de uma solução para a fome que o devora.
Nesse itinerário, o protagonista mergulha num Brasil contraditório, permeado por caricaturas políticas e sociais. Por meio de uma sátira política atual e carnavalizada, a peça revela as engrenagens opressivas de um sistema que, mesmo com nova roupagem, continua perpetuando a desigualdade. O elenco é formado por Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis.
Um clássico que ainda incomoda
Criada originalmente para relatar a luta de classes nos anos 1960, a obra agora dialoga com realidades contemporâneas, como a precarização do trabalho e o fenômeno da uberização. “A montagem busca atualizar o clássico de Boal entendendo que, embora o texto original seja datado em seu contexto histórico, a encenação e as dores da classe trabalhadora permanecem urgentes”, diz Wellington Fagner.
Na direção, aposto em recursos cômicos, paródicos e musicais para tratar de temas trágicos, gerando uma reflexão crítica por meio do humor e da estética popular.
“Utilizo também elementos do teatro de revista, como as cenas de passagem e da paródia política. Os personagens não possuem profundidade psicológica realista: são ‘tipos sociais’, caricaturas que expõem o funcionamento do capitalismo e das eleições”, afirma o diretor.
O legado de um seminário histórico
Cecília Boal lembra que a peça surgiu no contexto do Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena de São Paulo, em 1960. “O objetivo do Boal era que houvesse uma dramaturgia nacional, e esse gesto de instigar os escritores brasileiros a criarem uma dramaturgia própria já era, em si, uma ação política, porque só se encenavam peças estrangeiras”, diz.
Por outro lado, ela também reflete sobre o presente. “Eu me pergunto hoje, no contexto atual, o que o Boal diria. O que ele diz nessa peça ainda é verdade: o povo brasileiro, representado por Zé da Silva, é tão pobre que vende o voto por um prato de comida. Mas agora as motivações são outras”, ressalta Cecília, acrescentando que o sentimento patriótico está adormecido e que a soberania nacional está em jogo.
“Precisamos afirmar, com muita força, que o nosso país não está à venda”, completa a psicanalista.
Um clássico entre passado e presente
O ator Júnior Melo, do elenco, traça um paralelo entre a realidade de então e a de hoje. “Se a classe trabalhadora hoje não é idêntica àquela existente em meados do século passado, ela também não está em vias de desaparição, nem ontologicamente perdeu seu sentido estruturante”, analisa.
“A cena teatral contemporânea traz as questões urgentes do presente, mas sempre em fricção com o passado. Este texto é um clássico da dramaturgia política brasileira e, como todo clássico, está sujeito a novas temporalidades. Boal é nosso Shakespeare com a língua dos três ‘P’ – popular, político e poético”, completa o ator.
Sobre Augusto Boal
Augusto Boal (1931-2009) foi um dos dramaturgos que mais contribuiu para a criação de um teatro genuinamente brasileiro e latino-americano. Desde os primórdios de sua carreira, no Teatro de Arena, até o Teatro do Oprimido, técnica que o tornou mundialmente conhecido, passando pelas Sambóperas, sua preocupação foi a de criar uma linguagem que traduzisse a realidade do seu país, uma maneira brasileira de falar, sentir e pensar.
Essa preocupação imprime ao seu trabalho uma dimensão política e social, concebendo o teatro como instrumento de transformação alicerçada na temática e na linguagem. É autor de diversas obras literárias publicadas em vários idiomas e recebeu, durante sua vida profissional, um arsenal extraordinário de prêmios e honrarias.
Serviço
- Revolução na América do Sul, de Augusto Boal
- Direção: Wellington Fagner
- Temporada: 8 de setembro a 21 de outubro de 2026
- Sessões: terças e quartas-feiras, às 20h
- Local: Teatro Poeirinha
- Elenco: Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis
- Realização: Instituto Augusto Boal
Foto: Divulgação
