Alex Ferraz

Natália Régia estreia comédia sobre terapia com IA

O hábito de desabafar com a inteligência artificial ganha contornos de comédia em TerapIA, espetáculo solo de Natália Régia, que também assina a dramaturgia. A estreia acontece em 28 de agosto de 2026, no Teatro Café Pequeno, no Leblon, onde a montagem segue em temporada até 13 de setembro.

Com direção de Flávia Ruiz, a peça acompanha uma atriz-personagem que conversa com o Chat em busca de amor, sucesso profissional e senso de propósito. Enquanto isso, notícias insólitas interrompem o fluxo das confissões e levam as sessões de terapia a situações cada vez mais desesperadas — e, por isso mesmo, engraçadas.

Humor como espelho

A ideia do espetáculo surgiu a partir da experiência da própria Natália com a inteligência artificial. “Eu fui percebendo que no meu processo criativo eu pedia muito a opinião da IA e gostava do que ela me trazia. De repente o raio disso foi aumentando para questões pessoais, e à medida que ela ia falando eu percebi que estava começando a ficar dependente da validação dela”, conta.

Ao conversar com amigos, a atriz descobriu que o comportamento era compartilhado por outras pessoas, que também recorriam à IA para desabafar, analisar mensagens e dividir angústias. Além disso, a pesquisa sobre o tema despertou seu interesse pela relação entre tecnologia e saúde mental.

“Aí comecei a pesquisar e descobri que o Brasil é considerado um dos maiores fenômenos mundiais no uso de Inteligência Artificial para suporte emocional”, diz Natália. “Como eu gosto muito de falar sobre saúde mental, aquilo foi mexendo muito comigo e me dando necessidade de falar sobre.”

Para a atriz e comediante, a graça abre caminho para reflexões que poderiam parecer pesadas. “Eu acredito muito que o humor desarma. O público ri da situação, mas muitas vezes o riso é por identificação. Você está se vendo ali, ou está vendo um amigo. A comédia espelha muito o comportamento. É uma ferramenta muito poderosa de mudança, tanto no individual como no social”, afirma.

Uma personagem em camadas

As experiências com diferentes processos terapêuticos também atravessam a criação da personagem. “Eu me considero sommelier de terapia. Já fiz muitas, de várias abordagens possíveis”, brinca Natália.

Em seguida, ela descreve a personagem a partir de suas próprias fragilidades: “Sou uma pessoa muito insegura, traumatizada, sensível, artista… São muitas camadas que dificultam a minha existência na terra. As 150 mil terapias que eu já fiz me ajudaram muito a existir sendo eu mesma, com tudo que eu tenho, com tudo que eu sou, e poder trazer minha arte pro mundo”.

O vivo diante do artificial

Em sua estreia na direção, Flávia Ruiz encontrou no próprio tema da peça a chave para as escolhas estéticas. O espetáculo presencial, feito de encontros únicos, entra em choque com a virtualidade e a lógica tecnológica da inteligência artificial.

“É um espetáculo teatral. Logo, presencial, físico, mortal a cada apresentação — o teatro vive e morre em cada performance, que jamais será igual de um dia pro outro, único, não replicável. Mas… ele fala de IA, robótica, virtualidade, industrialização de todas as coisas, incluindo, com grande ênfase, o amor”, explica a diretora.

Dessa colisão entre o vivo e o artificial surgem referências presentes na cena, no figurino, na luz e na sonoplastia. As escolhas remetem sutilmente a outras épocas, incluindo os anos 1920 e 30, período marcado por transformações tecnológicas e comportamentais comparáveis às do presente.

A própria voz do Chat segue essa proposta. Natália grava as falas, que são transformadas pelo ator e músico Zéis até adquirirem uma sonoridade masculina e irreconhecível. “No fim das contas, é isso que uma IA é: um espelho de quem usa. É você mesmo, reciclado e jogado de volta pra você. Por isso tinha que ser a voz da própria Nati, ainda que dificilmente o público vai perceber isso. Mas faz diferença”, conclui Flávia Ruiz.

Participações diferentes a cada sessão

Outro elemento variável de TerapIA é a presença de um convidado especial em cada apresentação. A participação interfere no rumo da sessão e amplia o caráter único de cada encontro com o público.

Entre os convidados confirmados estão Aquela Miranda, Paulo Franco, Malu Falangola, Raissa Xavier, Cissa Guimarães, Fernando Caruso, João Campany e Dadá Coelho.

Serviço

Foto: Divulgação

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