Atuação e direção se encontram nos próximos passos de Pedro Goifman no cinema. “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., no qual interpreta uma das figuras centrais de uma seita, terá sua estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha.
Em São Paulo, “Adrenalina” marca sua estreia oficial como diretor no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo e traz Jean-Claude Bernardet em um de seus últimos trabalhos como ator.
Primeiro curta para o cinema
“Adrenalina” chega ao Festival Internacional de Curtas de São Paulo depois de outras experiências de Pedro atrás das câmeras, entre curtas caseiros e duas webséries realizadas durante a pandemia. Além disso, ele coleciona experiências no cinema como ator. A diferença, para o artista, está na própria concepção do novo trabalho.
Apesar de ser bastante despretensioso e formalmente investigativo, é um filme pensado para o cinema e com uma linguagem que conversa mais com a tela grande. Por isso considero meu primeiro filme como diretor
O Kinoforum, no entanto, está na trajetória de Pedro desde muito antes. Aos seis anos, participou de uma oficina no Itaú Cultural em que crianças escreveram, dirigiram e atuaram em um filme inspirado nos Parangolés de Hélio Oiticica. O trabalho foi exibido e premiado no festival. Aos oito, voltou com “O Olho e o Zarolho”, seu primeiro protagonista, também premiado.
Parceria com Bernardet
Jean-Claude Bernardet interpreta no curta um médico compulsivo por roubar bicicletas. A ideia nasceu durante um almoço de Pedro com os pais, quando viram passar um homem vestido com todo o aparato de ciclista e começaram a imaginar alguém que adotasse aquela aparência justamente para cometer os furtos.
Adrenalina sempre foi ele, nunca houve uma decisão. A gente sempre conversava de cinema e de ideias e sempre quis fazer um projeto com ele
O personagem foi pensado para Bernardet desde o início. A relação entre os dois vinha da infância de Pedro. Eles já se conheciam das filmagens de “FilmeFobia”, mas foi em “Periscópio”, rodado na casa da família do ator, que a proximidade ganhou outra dimensão.
Em “Adrenalina”, Pedro também atua. “Fora de cena, operava mais como diretor e, em cena, só buscava esquecer de tudo e estar lá com ele.”
Da despedida à estreia
Jean-Claude Bernardet morreu em julho de 2025, quando “Adrenalina” começava a ser montado. Seu velório aconteceu na Cinemateca Brasileira. Pouco mais de um ano depois, será justamente ali, na Sala Grande Otelo, que o curta encontrará seu primeiro público.
Será muito simbólico passar o filme lá pela primeira vez
Bernardet costumava brincar que havia feito filmes com os pais de Pedro, depois com ele, e que queria viver o suficiente para trabalhar também com um futuro filho do ator e diretor. “A principal herança que ele deixou para mim como artista foi essa garra por fazer, o tesão pela investigação artística, a sede que nunca acaba.”
Longa em San Sebastián
Selecionado para a mostra competitiva Horizontes Latinos, “A Professora de Francês” é uma coprodução entre Brasil, França e Portugal. O longa acompanha Graça, vivida por Grace Passô, que retorna à casa onde cresceu após uma emergência de saúde do pai e reencontra vizinhos que agora lideram uma seita.
“Cresci fazendo cinema autoral independente, e estar em um filme que debata questões políticas relevantes, com um diretor excelente, em um festival de tamanha projeção é um divisor de águas”, afirma Pedro.
No filme, Pedro interpreta Tomaz. O longa transita entre suspense, thriller psicológico e terror social para tratar de intolerância de gênero, fanatismo religioso, homofobia e das formas de violência que podem se esconder sob discursos de fé, família e proteção. “O que mais me chamou atenção foi a ousadia. Eu achei o filme poderoso, hipnotizante, encantador e propositalmente horroroso. Tentei trazer isso para o Tomaz”, conta.
Para construir o personagem, Pedro pesquisou líderes de cultos, figuras religiosas e técnicas utilizadas por charlatães. Também se debruçou sobre a escolha das palavras de Tomaz e encontrou dentro da própria família uma camada menos óbvia para a preparação. O longa reúne ainda Jehnny Beth, Elisa Lucinda, Bárbara Colen, Rômulo Braga, Eduardo Moreira e Rodger Rogério, além de Grace Passô.
Sem rótulos
Ator desde a infância, Pedro encontra na direção e na escrita outras maneiras de investigar o cinema, sem limitar seu lugar criativo e sem abandonar o espaço diante das câmeras que o norteia. Ele se define como “um ator que também dirige”.
Quero que o público reaja às obras, não a mim. Quero seguir investigando de maneira livre. Como ator, diretor, roteirista, o que for. Seguir pesquisando arte
“E quero que essa arte impacte. Faça o público sentir medo, sentir leveza, viajar, se teletransportar, rir, e se perguntar. Desnaturalizar o que está naturalizado e trazer mais questões do que respostas”, finaliza.
Foto: Divulgação

