Alex Ferraz

Estrangeiros retiram R$ 15,6 bi da B3 em agosto

O investidor estrangeiro mudou de posição em relação ao mercado brasileiro. Até 13 de agosto, o saldo líquido de investidores internacionais na B3 estava negativo em R$ 15,63 bilhões, segundo levantamento da Elos Ayta com dados da bolsa. Mesmo com o mês ainda em andamento, o volume já representa a maior saída mensal da série acompanhada pela consultoria desde janeiro de 2022.

O movimento contrasta com o início do ano. Somente entre janeiro e março, estrangeiros colocaram mais de R$ 53 bilhões no mercado acionário brasileiro. Em maio, no entanto, houve retirada de aproximadamente R$ 14,9 bilhões, seguida por nova saída em junho. Julho apresentou pequena recuperação, mas agosto voltou a registrar forte retirada de recursos.

Diferença entre portfólio e investimento direto

Apesar das manchetes sobre uma possível “debandada” de investidores, a leitura exige cautela. Sair da Bolsa não significa necessariamente sair do Brasil. Para o professor universitário e mestre em Negócios Internacionais André Charone, é preciso diferenciar o investimento de portfólio, mais líquido e sensível às oscilações do mercado, do investimento produtivo de longo prazo.

“O que os números mostram, até agora, não é uma retirada generalizada do capital estrangeiro do Brasil. Estamos vendo uma redução forte da exposição à Bolsa, mercado em que o investidor consegue reagir rapidamente às mudanças na percepção de risco”, explica Charone.

Investimento direto permanece forte

Os dados do Banco Central mostram um cenário diferente quando se observa o Investimento Direto no País (IDP). Em junho, o Brasil recebeu US$ 9,1 bilhões em investimentos diretos. No acumulado de 12 meses, o volume chegou a US$ 89,3 bilhões, equivalente a 3,58% do PIB.

Para Charone, essa diferença é fundamental para entender o momento. “Existe uma distância enorme entre vender uma ação e desistir de construir uma fábrica, adquirir uma empresa, ampliar uma operação ou reinvestir lucros no país. Não podemos tratar esses movimentos como se fossem a mesma coisa”, afirma.

Segundo o especialista, uma perda mais estrutural de confiança seria percebida caso a saída da Bolsa fosse acompanhada por redução persistente do investimento direto e cancelamento de projetos empresariais. “O sinal de alerta está aceso, mas ainda não estamos diante de uma fuga estrutural do investimento estrangeiro. O que existe, principalmente, é uma reprecificação do risco brasileiro no mercado financeiro”, avalia.

Fatores que pesam na decisão

Entre os fatores que ajudam a explicar a cautela dos investidores estão as preocupações com as contas públicas, a permanência dos juros em níveis elevados, a desaceleração da economia e a proximidade das eleições presidenciais. Na última semana, o JPMorgan reduziu sua recomendação para ações brasileiras de overweight para neutra, citando, entre outros fatores, crescimento mais fraco, juros elevados e maior volatilidade eleitoral.

Para Charone, o investidor não precisa necessariamente prever uma crise para reduzir sua exposição. “Basta perceber que a relação entre risco e retorno piorou. Quando aumentam as dúvidas sobre dívida pública, política fiscal, juros ou o cenário econômico do próximo governo, o investidor passa a exigir um prêmio maior para manter recursos no país”, explica.

O que observar

A principal dúvida agora é saber se a saída observada em agosto representa apenas um ajuste de posições ou o início de uma tendência mais prolongada. Para avaliar esse cenário, será necessário acompanhar simultaneamente o fluxo estrangeiro na B3, o comportamento do dólar e dos juros, a evolução das contas públicas, o ambiente eleitoral e, principalmente, os próximos dados de investimento direto divulgados pelo Banco Central.

“A Bolsa funciona como um termômetro quase instantâneo da confiança. O investimento direto reage mais lentamente, mas revela uma decisão muito mais profunda. Se os dois começarem a apontar deterioração ao mesmo tempo, aí teremos um cenário realmente mais preocupante”, conclui Charone.

Por enquanto, a mensagem do mercado parece ser menos a de que o estrangeiro está abandonando o Brasil e mais a de que está exigindo uma remuneração maior para aceitar os riscos de permanecer investido no país.

Foto: Divulgação / Consultório da Fama

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