Alex Ferraz

Canetas emagrecedoras impactam mercado plus size

As chamadas canetas emagrecedoras deixaram de ser um fenômeno restrito ao setor farmacêutico e começam a produzir efeitos em mercados que vão muito além da saúde. Na moda, a popularização dos medicamentos para emagrecimento pode estar criando uma nova dinâmica de consumo: mulheres que passam por mudanças rápidas nas medidas deixam de usar peças que já possuem e antecipam a compra de novos tamanhos, fazendo com que a relação com o guarda-roupa se torne mais dinâmica.

Um dos sinais mais concretos desse movimento vem da Riachuelo. Em junho deste ano, a CMO da varejista, Cathyelle Schroeder, afirmou que a empresa identificou uma redução média de 5% na grade de modelagem e de 4% em categorias como camisetas. Segundo a executiva, PP e P começaram a faltar nas lojas, enquanto G e GG passaram a apresentar sobra, comportamento que não era observado anteriormente.

A companhia também citou uma projeção de retração de quase 6% do mercado de moda plus size em 2026. O movimento chama atenção porque ocorre após anos de expansão do segmento, que cresceu 12,7% em 2021, chegando a 188 milhões de peças, enquanto o mercado de vestuário avançou 9,6% no mesmo período.

Impacto no beachwear

Na Arsie, que atua no segmento de moda praia, essa mudança já aparece nos resultados da marca: segundo levantamento interno, as vendas de peças plus size registraram queda de 40%. O dado não representa, isoladamente, todo o mercado plus size, mas sinaliza uma alteração concreta na distribuição da demanda dentro da categoria.

Para Karine Strapazzon, especialista em modelagem e fundadora da Arsie, a segunda hipótese ajuda a explicar uma parte importante desse comportamento. “Quando uma pessoa muda de manequim em um intervalo curto, ela não necessariamente deixa de consumir moda. Muitas vezes, ela passa a consumir de outra forma, transitando por diferentes pontos da grade”, explica.

“Uma peça que poderia permanecer no guarda-roupa durante anos pode ser substituída em poucos meses. Para o varejo, isso muda a frequência de compra e exige uma leitura diferente de estoque, grade e comportamento do consumidor”, completa Karine.

Guarda-roupa de transição

Esse fenômeno pode ser entendido como um “guarda-roupa de transição”: em vez de permanecer durante anos em uma mesma numeração, a consumidora pode atravessar diferentes tamanhos à medida que seu corpo muda, fazendo compras sucessivas ao longo desse processo. Segundo dados apresentados pela Riachuelo, 80% das pessoas que perdem uma quantidade significativa de peso afirmam precisar renovar o guarda-roupa, enquanto 55% já fizeram compras com esse objetivo.

No beachwear, a mudança ganha uma dimensão ainda mais específica. Biquínis e maiôs dependem diretamente de proporção, cobertura e encaixe, o que pode fazer com que uma peça deixe de ser utilizada mesmo antes de uma nova temporada quando há uma alteração significativa nas medidas.

“A moda praia torna essa mudança muito visível porque a relação entre corpo e produto é muito direta. A consumidora pode continuar gostando de um biquíni, mas, se o corpo mudou, aquela peça pode deixar de oferecer o mesmo encaixe, cobertura ou segurança”, afirma Karine Strapazzon.

Novo comportamento de consumo

A questão, portanto, não é apenas se as canetas emagrecedoras estão fazendo mulheres comprarem roupas menores. O impacto mais relevante para a moda pode estar na velocidade com que o consumidor atravessa a grade de tamanhos. Para marcas e varejistas, isso significa repensar estoque, produção e frequência de compra a partir de um consumidor menos estático.

“O corpo pode mudar, o tamanho pode mudar e a frequência de compra também. A marca que conseguir interpretar essas movimentações com dados, sem concluir automaticamente que um público deixou de existir, estará mais preparada”, conclui Karine.

No beachwear, isso significa desenvolver produtos para diferentes momentos e, principalmente, entender que diversidade e comportamento de consumo precisam ser analisados juntos. O varejo que conseguir acompanhar essas transformações com agilidade e dados estará melhor posicionado para atender às novas demandas do mercado.

Foto: Divulgação

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