Alex Ferraz

A lição que uma dívida de R$500 mil deixou

Paulo Motta já havia empreendido, movimentado dinheiro e conduzido projetos de grande porte quando um negócio na área de entretenimento fracassou. Restou uma dívida próxima de R$500 mil e a necessidade de recomeçar.

A perda teve um efeito que parecia irreversível. No entanto, depois da quebra, cada escolha passou a carregar a lembrança do que pode acontecer quando confiança, entusiasmo e pressa falam mais alto do que os números.

Velocidade não é sinônimo de qualidade

Para Motta, investidor e empresário multissetorial, o ambiente de negócios atual impõe um ritmo de decisão cada vez mais acelerado, o que aumenta o risco de escolhas mal avaliadas.

A quantidade de informações aumentou exponencialmente, mas nossa capacidade de atenção continua a mesma. O empresário precisa decidir cada vez mais rápido, muitas vezes antes de conseguir refletir sobre todas as variáveis. O risco é confundir velocidade com qualidade.

O ambiente corporativo, aliás, ajuda a alimentar essa pressa. Relatórios, reuniões, mensagens e indicadores chegam ao mesmo tempo, e antes que uma informação seja compreendida, outra já exige resposta.

Sobrecarga de informação afeta líderes

O Work Trend Index 2025, da Microsoft, ouviu 31 mil profissionais em 31 países e constatou que 80% não têm tempo ou energia suficientes para realizar o próprio trabalho. Entre os líderes, 52% descrevem a rotina como caótica e fragmentada.

Sob essa pressão, uma resposta rápida pode ser confundida com liderança, embora nem sempre seja. Há decisões que parecem corajosas apenas porque foram tomadas sem tempo para avaliar as consequências.

O que mudou depois de recomeçar

Motta aprendeu isso da maneira mais cara. A quebra não o tornou avesso ao risco: ele voltou a empreender, participou da estruturação de novos negócios e ampliou sua atuação. O que mudou foi a pergunta feita antes de avançar.

Em vez de olhar apenas para o potencial de retorno, ele passou a considerar também o tamanho da perda e a capacidade de suportá-la.

Depois de recomeçar, a relação com o dinheiro muda. Crescer deixa de ser apenas faturar mais e passa a envolver proteção, previsibilidade e organização. Nesse caso, o risco fica visível e mais fácil de ser gerido.

Emoções que raramente aparecem nas planilhas

Os números, porém, não são os únicos elementos capazes de distorcer uma escolha. Medo, ego, lealdade e apego também entram nas reuniões, embora raramente apareçam nas apresentações.

O empresário britânico Jason Barnard reconheceu essa interferência ao rever decisões tomadas à frente de sua empresa. Em artigo publicado pela revista Entrepreneur, contou que manteve profissionais com baixo desempenho porque evitava conflitos, cedeu a clientes prejudiciais à operação por receio de perder contratos e insistiu em sistemas ultrapassados por apego ao que havia construído.

Na época, essas atitudes pareciam até responsáveis. Mais tarde, Barnard percebeu que estava permitindo que as emoções conduzissem a empresa. O caso revela uma armadilha comum, em que uma escolha ruim nem sempre se apresenta como imprudência. Pode chegar disfarçada de lealdade, persistência ou cuidado com o faturamento.

O que a ciência diz sobre emoção e liderança

Uma revisão publicada na Human Resource Development Review analisou 101 estudos realizados entre 1990 e 2021 sobre inteligência emocional e liderança. Os pesquisadores encontraram associações com o comportamento dos líderes, o bem-estar e o desempenho.

O trabalho não estabelece uma relação direta de causa e efeito, mas reforça a importância de reconhecer o peso das emoções antes que elas assumam o controle.

Rapidez não pode ser desculpa para agir sem pensar

Isso não quer dizer que toda escolha precise passar por semanas de análise. Empresas também perdem oportunidades quando demoram demais. O ponto, para Motta, é não usar a urgência como desculpa para agir sem pensar ou questionar.

Existe uma crença de que decidir rápido é sempre decidir melhor. Em muitos casos, a decisão mais valiosa é justamente aquela tomada quando o líder consegue separar fatos, pressão e emoção.

Hoje, Motta atua em negócios de diferentes áreas e mantém a disposição para entrar em novos projetos. A experiência da quebra não eliminou a ousadia, mas deu menos margem à ingenuidade.

Por fim, a tecnologia pode processar dados, antecipar cenários e acelerar análises. Ainda assim, alguém precisará decidir quanto arriscar, em quem confiar e até onde avançar. Para quem já perdeu tudo, essas perguntas nunca mais são apenas parte do trabalho. São parte da memória.

Sobre Paulo Motta

Paulo Motta é investidor, empresário multissetorial e sócio da IMvester, com atuação nos mercados imobiliários do Brasil, Portugal e Estados Unidos. Preside a holding The Networkers, voltada a inteligência comercial, networking corporativo e desenvolvimento de negócios, e também o Roga Village, um espaço completo para eventos vivenciais, sociais e corporativos. Formado em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua na estruturação de investimentos e no desenvolvimento de lideranças empresariais.

Foto: Divulgação

A lição que uma dívida de R$500 mil deixou
Sair da versão mobile