Alex Ferraz

SARAKURAS estreia no Sesc com memória do Rio Saracura

Antes de se transformar na avenida mais conhecida de São Paulo, a região da Paulista era cortada por um rio. É dessa memória apagada pela urbanização que nasce SARAKURAS, performance que estreia no dia 6 de agosto no Sesc Avenida Paulista, onde segue em temporada até 16 de agosto.

Concebida pelas artistas Ayo Klunga e Kyra Reis, a obra investiga as relações entre travestilidade, raça e território a partir da história do antigo Rio Saracura, curso d’água canalizado pelo crescimento da cidade. A criação recupera esse passado hidrográfico para refletir sobre os corpos que também foram apagados pelo processo de urbanização.

Uma travessia entre rio e ave

A performance foi desenvolvida durante residência artística no Nos en Vera – Espacio de Investigación y Experimentación en Artes y Prácticas Performativas, em Buenos Aires. Nesse processo, as artistas estabeleceram um diálogo entre memória urbana, ancestralidade e experimentação cênica.

Inspirada na ave saracura, a obra constrói uma narrativa em que rio e ave deixam de existir como elementos distintos. Dessa forma, ambos passam a compor uma mesma travessia poética, marcada por transformação, deslocamento e reinvenção.

Ao recuperar a memória do Rio Saracura, buscamos refletir sobre os apagamentos produzidos pela cidade e imaginar outras formas de existência para nossos corpos e territórios.

A frase é de Ayo Klunga, uma das criadoras da obra. Para ela, o resgate dessa memória hídrica funciona também como um gesto político de reinvenção territorial.

Travestilidade como linguagem e resistência

SARAKURAS parte da intersecção entre raça, gênero e território para questionar a lógica binária herdada da colonialidade. Nesse sentido, a travestilidade ocupa o centro da criação como linguagem estética e política.

Além disso, referências à dualidade dos ibejis e à cultura Ballroom atravessam a cena como estratégias de resistência, multiplicidade e criação de novas possibilidades de presença. Sem recorrer a uma narrativa linear, a performance propõe uma experiência sensorial em que voz, silêncio, ruído, movimento e imagem se transformam continuamente.

Assim, o corpo deixa de responder a categorias fixas para tornar-se arquivo, paisagem e espaço de invenção.

A performance nasce da necessidade de criar outros imaginários para corpas travestis negras. É uma celebração da travestilidade como linguagem, gesto, identidade e território.

A declaração é de Kyra Reis, que assina a criação junto com Ayo Klunga.

Uma parceria construída desde 2019

A colaboração entre as duas artistas começou em 2019. Naturais do Vale do Paraíba, em São Paulo, Ayo Klunga e Kyra Reis desenvolvem uma pesquisa continuada sobre performance, corporalidade e travestilidade.

Essa investigação se aprofundou após a mudança das artistas para a capital paulista e ganhou novas camadas durante o processo de criação realizado em Buenos Aires. Por fim, ao estrear no Sesc Avenida Paulista, SARAKURAS estabelece um encontro entre memória urbana, arte contemporânea e experiências dissidentes, propondo ao público uma reflexão sobre os modos como os corpos ocupam, transformam e reinventam a cidade.

Oficina complementa a temporada

Além das apresentações, a dupla conduz uma oficina formativa chamada SARAKURAS Lab. A atividade propõe uma imersão prática no corpo como território sensível, político e em constante transformação.

Inspirada em pensamentos afrodiaspóricos e em práticas contemporâneas de performance, a oficina compreende o corpo como uma encruzilhada de saberes. Os encontros acontecem de 11 a 14 de agosto, com inscrições abertas online.

Serviço

Foto: Cacá Bernardes

SARAKURAS estreia no Sesc com memória do Rio Saracura
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