Alex Ferraz

Canetas emagrecedoras já reformulam consumo no Brasil

Um medicamento pensado para tratar diabetes e obesidade começa a reescrever a lógica do consumo brasileiro. As chamadas canetas emagrecedoras, da classe GLP-1, já provocam mudanças mensuráveis na forma como as pessoas compram alimentos, escolhem refeições e se relacionam com o impulso de consumir.

Estudos publicados em 2026 mostram que usuários desses medicamentos reduziram significativamente a compra de alimentos ultraprocessados, açúcar, gorduras e refeições de fast food. Ao mesmo tempo, aumentou a procura por alimentos ricos em proteína e fibras. Uma pesquisa publicada no Journal of Marketing Research identificou queda média de 5,3% nos gastos com supermercados e redução de aproximadamente 8% nas despesas com redes de alimentação rápida entre esses consumidores.

O movimento já chega às mesas brasileiras

No Brasil, o efeito das canetas emagrecedoras já aparece nos restaurantes. Levantamento da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) mostra que 61% dos empresários do setor observaram mudanças no comportamento dos clientes relacionadas ao uso dos medicamentos. Entre as principais alterações, destacam-se a redução de pedidos de pratos principais e sobremesas e o aumento da procura por porções menores e opções mais leves.

Para Paulo Crepaldi, especialista em comportamento de consumidor e CEO da ING Marketing & Training, o impacto mais profundo dessa popularização não será sentido apenas nas farmácias, mas em toda a economia de consumo.

Os dados mostram que não estamos falando apenas de emagrecimento, mas de uma mudança estrutural na lógica do consumo.

Segundo o especialista, o diferencial dos estudos recentes está na metodologia. O levantamento de Cornell, por exemplo, não mediu apenas intenção de compra: analisou compras reais antes e depois do uso do GLP-1. “Isso indica que a redução da impulsividade alimentar pode se traduzir em menos compras por impulso e em escolhas muito mais seletivas”, completa Crepaldi.

De acordo com o estudo, as maiores quedas ocorreram em salgadinhos, doces, refrigerantes e outros produtos ultraprocessados. Por outro lado, categorias associadas à nutrição funcional, como alimentos ricos em proteína e fibra, apresentaram maior resiliência.

Da economia do não consumo ao consumo seletivo

Para Crepaldi, esse comportamento antecipa o que pode ocorrer no Brasil à medida que os genéricos reduzirem o custo de acesso às medicações. “A discussão não é se as pessoas vão parar de consumir, mas o que elas deixarão de consumir. O consumidor que antes comprava por recompensa emocional tende a migrar para produtos que justifiquem o gasto em termos de saúde, saciedade e bem-estar”, diz.

Segundo o especialista, a economia do “não consumo” não será o modelo dominante. O que emerge, na visão dele, é uma economia do consumo seletivo. Com a redução da impulsividade gerada pelos medicamentos GLP-1, milhões de brasileiros passarão a pensar duas vezes antes de comprar, priorizando produtos que entreguem valor real à saúde, ao bem-estar e ao estilo de vida.

Dessa forma, o gasto não desaparece, mas muda de direção. “Com um consumidor cada vez mais consciente e seletivo, as marcas precisarão ajustar suas ofertas e estratégias para atender à nova demanda por produtos mais saudáveis, práticos e com percepção clara de valor”, analisa Crepaldi.

Quem tende a ganhar com o novo consumidor

Crepaldi aponta que a nova economia de consumo terá vencedores e perdedores claros. Entre os setores que devem se fortalecer, estão:

Quem pode perder espaço

Em contrapartida, alguns modelos de negócio enfrentam risco real de retração:

A guerra silenciosa da indústria farmacêutica

Além do impacto no varejo, Crepaldi destaca uma disputa que já ocorre nos bastidores da própria indústria farmacêutica. Segundo ele, à medida que mais marcas passam a oferecer o mesmo princípio ativo, a concorrência muda de natureza.

Quando o princípio ativo se torna uma commodity — o mesmo remédio, com nomes diferentes —, a batalha deixa de ser química e passa a ser comportamental e estratégica.

Para vencer essa disputa, segundo o especialista, as farmacêuticas terão de abandonar o marketing tradicional e adotar o marketing comportamental. Isso significa criar narrativas que deem segurança psicológica ao médico para prescrever uma nova marca e, ao mesmo tempo, conectar-se emocionalmente com um paciente que se tornou um consumidor ativo.

Por fim, Crepaldi resume o momento com um conceito próprio. “Estamos vivendo a era do Tecno Sapiens, um ser humano que terceiriza parte do controle de seus impulsos para a tecnologia. A caneta emagrecedora é, no fundo, uma solução tecnológica para um problema comportamental. Se milhões de pessoas passarem a sentir menos urgência para comer, comprar e se recompensar, varejo, alimentação e indústria terão de se adaptar a um consumidor mais racional, menos impulsivo e muito mais seletivo. As marcas que entenderem essa mudança estrutural vão prosperar; as que não entenderem, ficarão para trás”, conclui.

Foto: Divulgação

Canetas emagrecedoras já reformulam consumo no Brasil
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