Alex Ferraz

DUNA lança disco lo-fi sobre amor digital

Relações que oscilam entre aproximação e afastamento, desejo e silêncio, ganham forma sonora no novo projeto de DUNA. O duo formado por Everton Behenck e Guilherme Rech — este último também integrante da banda Lã e do projeto Amigo Imaginário — lança um disco narrativo que observa vínculos afetivos marcados por instabilidade, contradição e a mediação constante das telas.

O lançamento chega acompanhado do videoclipe do single “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado, que utiliza inteligência artificial como linguagem narrativa para contar uma história de conflito, desejo e recaída.

A duna como metáfora afetiva

O nome do projeto não é aleatório. A duna, que muda de forma conforme o vento e o deslocamento do corpo, funciona como imagem central para descrever relações que se reorganizam constantemente, alternando momentos de leveza e sufocamento, proximidade e desgaste. Ao longo das faixas, o amor aparece menos como promessa de estabilidade e mais como movimento contínuo, feito de avanços, recuos e tentativas de permanência.

Desenvolvido ao longo de 2024, o disco nasce do interesse em transformar experiências cotidianas — aproximação, afastamento, ruído emocional — em pequenas cenas musicais. Nessas cenas, a intimidade aparece atravessada pelo modo como as pessoas se relacionam hoje, quase sempre mediado por telas, mensagens e silêncios.

Uma parceria construída à distância

Curiosamente, o processo de criação do disco reproduz o próprio tema que ele discute. Everton, em São Paulo, e Guilherme, em Florianópolis, desenvolveram todo o projeto à distância, trocando ideias e finalizando as músicas por mensagens. Dessa forma, a mediação tecnológica que atravessa o conteúdo das canções também esteve presente na própria feitura do disco.

As bases desenvolvidas por Guilherme deram origem a melodias e letras de Everton, pensadas como cenas com início, tensão e consequência. O resultado é um conjunto narrativo que se escuta como um arco emocional completo, quase um roteiro sonoro sobre os altos e baixos de uma relação.

Estética lo-fi entre calor e madrugada

Em termos sonoros, o disco aposta em uma estética lo-fi de caráter íntimo, com vozes próximas e arranjos que sustentam o clima sem disputar atenção com a narrativa. A atmosfera remete a calor, litoral e madrugada, criando um espaço em que romance e ruído convivem lado a lado.

A captação e edição de vocais ficaram a cargo de Lou Schmidt, da AntFood, enquanto a mixagem e masterização foram realizadas por Fernando Ianni. Juntos, esses elementos técnicos reforçam a proposta de um disco que soa próximo, quase confessional.

Capítulos de uma mesma relação

Ao longo do repertório, as canções percorrem diferentes estados de uma mesma relação: o impulso de bloqueio que convive com a recaída, o pós-relacionamento vivido na tela, a insistência diante do silêncio, o respiro ilusório da reconciliação, a travessia imperfeita de quem ainda tenta acreditar, o jogo afetivo como mecanismo de defesa e, por fim, a madrugada como espaço da recaída sem glamour.

As faixas se organizam, portanto, como capítulos de uma história construída na fricção entre desejo de permanência e vontade de fuga — um retrato honesto de vínculos que raramente são simples.

“Quando existe agressão física ou uma violência muito explícita, é fácil identificar uma relação tóxica. Mas existe uma zona cinza onde quase todo mundo já esteve: até onde é uma dificuldade natural da relação? Até onde é desgaste? E quando começa a ultrapassar um limite? Nem o disco nem o clipe querem responder isso de forma definitiva – porque cada pessoa sabe os próprios limites. Mas a discussão está no ar.”

Porcos-espinhos e o dilema da intimidade

O lançamento do disco é acompanhado pelo videoclipe do single “Sal & Sombra”, dirigido por Carol Delgado. Utilizando inteligência artificial como linguagem narrativa, o clipe desloca a estética de animações populares para situações adultas, marcadas por conflito, desejo, recaída e silêncio.

A narrativa acompanha dois porcos-espinhos que tentam se aproximar, mas se machucam ao encostar — imagem que sintetiza o núcleo do projeto: a dificuldade de sustentar a intimidade quando o próprio afeto também carrega espinhos.

Assim, DUNA entrega um projeto que não busca respostas fáceis sobre relacionamentos contemporâneos, mas propõe, através da música e da imagem, um espaço de reflexão sobre os limites entre desgaste natural e desgaste tóxico nas relações mediadas pelo digital.

Serviço

Foto: Divulgação

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