Alex Ferraz

Fatel lança “Rasante” e celebra o sertão em disco

Fatel apresenta Rasante, álbum que chega nesta sexta-feira (24), via ONErpm, e transforma a experiência do sertão em linguagem musical, poética e afetiva. Em dez faixas, o cantor, compositor e poeta baiano constrói uma obra que aproxima memória, desejo, palavra e pertencimento em um disco marcado pela escuta atenta e pela delicadeza dos arranjos.

Com participações de Josyara, Guigga, Ivan Sacerdote, Grupo Ofá, Cicinho de Assis e Mário Soares, o trabalho nasce de uma imagem de voo próximo à terra. Em vez de mirar distância, o álbum escolhe a permanência, o contorno e a desaceleração como ponto de partida para cantar o Brasil a partir do sertão.

Sertão como linguagem

Nascido em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, Fatel faz da vivência sertaneja uma linguagem, e não apenas um tema. Em Rasante, o sertão não surge como cenário nem como nostalgia, mas como presença viva na forma como as melodias respiram e nas imagens poéticas que atravessam as canções.

O artista explica essa escolha como uma afirmação de resistência. Para ele, o disco foi construído com calma, com gente de verdade, sem buscar retratar o Nordeste de maneira ilustrativa, mas cantar o Brasil a partir dele.

“O Rasante é pra mim um símbolo de resistência. Um trabalho feito com muita calma, uma música feita com gente de verdade, de uma poesia e de uma musicalidade que não busca retratar o Nordeste ou o Sertão, mas falar e cantar o Brasil a partir dele”, afirma Fatel.

Arranjos e atmosfera

Produzido artisticamente por Fatel e Tarcísio Santos, o álbum percorre diferentes paisagens sonoras sem perder unidade. Cordas, sopros, sanfona, percussões afro-brasileiras e uma instrumentação econômica sustentam um conjunto em que o silêncio também tem peso.

Cada arranjo parece nascer da necessidade da própria música, sem excessos. Assim, o disco privilegia atmosfera e deixa a palavra ocupar o centro, criando uma escuta íntima e cuidadosa.

Canções e participações

Faixas como Aprender a Nadar, Não Negue o Medo, Nego e Trilhas de Corte mostram diferentes caminhos do álbum. Em Aprender a Nadar, a voz encontra abrigo no violão e nas cordas; já Não Negue o Medo, Nego amplia o horizonte com sopros, guitarra e percussão; enquanto Trilhas de Corte recebe a participação de Guigga e ganha novas camadas sobre identidade e deslocamento.

As participações especiais ampliam essa paisagem sem aparecer como ornamento. Josyara empresta a voz a Nós Dois; Ivan Sacerdote colore Cobra Coral com o clarinete; Cicinho de Assis e Mário Soares aproximam o disco das sonoridades do interior nordestino em Canto de Madrugou; e o Grupo Ofá imprime uma dimensão ritualística a Mãe Menina.

Segundo Fatel, a escolha dos convidados nasceu da verdade do processo e do desejo de reunir pessoas próximas e admiradas. Ele destaca também a presença de Josyara, conterrânea de Juazeiro, como uma das vozes que melhor representam essa história.

“A escolha das participações para o álbum foi baseada na forma como a gente faz as coisas, que é com muita verdade, trazendo quem está perto e quem a gente admira, como o Guigga, com quem escrevi ‘Trilhas de Corte’, parceiro de alguns anos. Eu penso no Rasante também como um disco de apresentação, então trazer Josyara, que é uma conterrânea, pra contar essa história faz todo sentido, porque ela é a maior representante da música brasileira no país vindo de Juazeiro, e eu digo isso com muito orgulho. Todas as outras participações são de pessoas de quem eu sou muito fã e que trazem um peso para um disco como esse: baiano, feito por pessoas do interior”, comenta Fatel.

Tradição e invenção

Ao incluir Cobra Coral, de Waly Salomão e Caetano Veloso, e Olha pro Céu, de Luiz Gonzaga e José Fernandes de Carvalho, Fatel estabelece diálogo com diferentes linhagens da canção brasileira. As releituras entram no universo do álbum com propriedade e reforçam a continuidade entre tradição e criação contemporânea.

Mais do que reunir dez faixas, Rasante mostra um momento de maturidade artística. A produção precisa, os arranjos elegantes e a consistência da escrita reafirmam Fatel como um dos compositores de sua geração que melhor compreendem a canção como espaço de invenção poética.

Em tempos de velocidade e excesso, o disco escolhe outro caminho: aproxima-se da terra, da palavra e do silêncio. O resultado é um trabalho que convida o ouvinte não apenas a escutar, mas a habitar cada canção.

Ficha técnica

Foto: Lígia Rizério

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