Alex Ferraz

Ser mãe e profissional: equilíbrio possível, não perfeito

Uma reunião importante, a bebê no colo e a câmera desligada. Essa imagem, vivida por Adriana Wells, diretora de Recursos Humanos da Foundever, resume algo que milhões de mulheres enfrentam diariamente, mas raramente conseguem nomear: a solidão de sustentar múltiplas identidades ao mesmo tempo, sem que isso seja, de fato, reconhecido.

Psicóloga, mãe de duas filhas, atleta há mais de três décadas e líder em uma empresa global presente em mais de 45 países, Adriana assina um artigo que vai além do relato pessoal. É uma reflexão honesta sobre maternidade, mercado de trabalho e os limites reais da conciliação.

O que o mercado ainda não aprendeu

Adriana descreve sua primeira gestação como marcada por descobertas, mas também por bastante solidão. A ausência de uma rede de suporte estruturada evidenciou algo que ela define como incômodo: o mercado de trabalho ainda não sabe lidar bem com mulheres que se tornam mães. Muito menos com aquelas que retornam do puerpério ainda em reconstrução, física, emocional e identitária.

“A maternidade não pede licença. Ela entra na sua rotina, atravessa sua agenda e redefine quem você é.”

Por muito tempo, o mundo corporativo tratou a maternidade como um desvio a ser corrigido, como se a mulher precisasse simplesmente “voltar a performar como antes”. Para Adriana, essa lógica ignora o que é real: não se trata de fraqueza, mas de biologia, emoção e uma reorganização completa da vida.

Da vivência à política: o Programa Maternar

Na posição que ocupa hoje, Adriana carrega uma responsabilidade clara: fazer diferente. Na Foundever, ela ajudou a estruturar o Programa Maternar, iniciativa que acompanha a gestante ao longo de toda a jornada, com apoio do ambulatório, orientação e, principalmente, escuta.

O programa parte de um princípio que ela define como estratégico, não apenas empático: apoiar mães é uma decisão de negócio. “Uma mulher grávida não é um risco a ser gerenciado. É uma profissional que precisa de suporte para continuar contribuindo com consistência”, escreve.

Além disso, a iniciativa contempla ações específicas para o puerpério, período que ela aponta como ainda negligenciado pelas empresas. Rodas de conversa, apoio social e espaços seguros de troca fazem parte da estrutura. “Existe algo muito potente em perceber que você não está sozinha. Que não é falha individual, é contexto”, afirma.

Estrutura, não discurso

No retorno ao trabalho, especialmente durante a amamentação, Adriana é direta: o que essa mulher precisa não é de resiliência heroica, mas de estrutura. As salas de lactação da Foundever existem, segundo ela, para garantir dignidade e viabilizar a continuidade da amamentação mesmo em uma rotina profissional exigente. “Não é detalhe. É o que diferencia suporte real de discurso.”

Todos os programas são gratuitos para as colaboradoras da empresa. Não por benevolência, explica Adriana, mas porque reter talentos femininos é uma decisão de negócio. “Uma empresa que cuida das suas pessoas constrói um nível de comprometimento que não se impõe, mas se conquista.”

Conciliar é priorizar, não equilibrar tudo

O esporte sempre foi o ponto de equilíbrio de Adriana. Ela nada, faz musculação, pedala e, mais recentemente, começou a correr. É por meio dessa rotina que ela diz ter entendido algo essencial sobre conciliação.

“Conciliar não é equilibrar tudo perfeitamente, mas priorizar com consciência. É aceitar que, em alguns dias, o treino vai esperar. Em outros, o trabalho espera.”

Com duas filhas, sendo a mais velha com sete anos e a caçula com um ano recém-completado, ela reconhece que não existe uma única forma de viver a maternidade. A primeira foi mais dura. A segunda, mais consciente. Em ambas, o que fez diferença foi ter uma rede de pessoas, de políticas e de cultura.

Por fim, o artigo termina com um convite direto a quem lidera: “Pergunte às mães da sua equipe o que elas precisam. E, dessa vez, escute de verdade.” Para Adriana Wells, a maternidade não reduz o potencial de uma mulher. Ela amplia.

Foto: Divulgação

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