Alex Ferraz

Design ganha papel estratégico na construção de marcas

O design deixou de ocupar um papel secundário na construção das marcas e passou a atuar como elemento central na definição de valor, posicionamento e percepção. Em um cenário marcado por excesso de estímulos visuais, concorrência global e atenção fragmentada, a estética isolada já não sustenta diferenciação.

Se antes o design era associado apenas ao acabamento visual de ideias prontas, hoje ele se consolida como uma linguagem estratégica capaz de organizar a forma como uma marca é percebida pelo público.

Da estética à estratégia

A transformação é evidente, especialmente no universo das marcas de alto padrão. Nesse contexto, o design não se limita à aparência, mas atua na construção de experiências e na organização de todos os pontos de contato com o consumidor.

Assim, elementos visuais, linguagem, atendimento e experiência passam a funcionar como partes de um mesmo sistema, responsável por moldar a percepção do público.

Relevância, confiança e sofisticação deixam de ser apenas atributos desejados e passam a ser construídos de forma intencional por meio de decisões de design consistentes.

O território da percepção

À medida que produtos e serviços se tornam funcionalmente semelhantes, a disputa entre marcas migra para um campo menos tangível: o da percepção. Nesse cenário, cada escolha — seja visual, verbal ou experiencial — influencia diretamente como uma marca é interpretada.

Dessa forma, o valor passa a estar na capacidade de construir significado. O público não consome apenas produtos, mas também os símbolos associados a eles, utilizando essas referências para comunicar identidade e posicionamento social.

Um exemplo clássico dessa dinâmica está na disputa entre Coca-Cola e Pepsi. Mesmo diante de produtos similares, a percepção construída ao longo do tempo influenciou preferências e consolidou posicionamentos distintos.

Consistência como diferencial

Em um ambiente saturado de imagens e campanhas sofisticadas, o impacto imediato perdeu força como principal indicador de sucesso. O que diferencia marcas relevantes é a consistência do sistema como um todo.

Mais do que elementos visuais isolados, o público reconhece a lógica que conecta produto, comunicação e experiência. Essa repetição estruturada é responsável por criar memória e, consequentemente, preferência.

Exemplos contemporâneos

Campanhas recentes reforçam essa mudança de paradigma. Em 2025, a Apple expandiu a plataforma “Shot on iPhone” com produções cinematográficas gravadas no iPhone 16 Pro, como o curta Big Man, estrelado por Stormzy. A iniciativa transformou o produto em ferramenta narrativa, conectando tecnologia, cinema e branding.

Já a Bottega Veneta apostou em uma estética minimalista e silenciosa em sua campanha Summer 25, utilizando direção de arte precisa e elementos simbólicos para construir desejo sem recorrer ao excesso.

Em ambos os casos, o diferencial está na coerência entre narrativa, comportamento e experiência, consolidando o design como estrutura estratégica.

O novo luxo e a precisão

No segmento de alto padrão, essa lógica se intensifica. O luxo contemporâneo se afasta da ostentação e passa a valorizar a precisão e a coerência. Cada elemento — do material ao ritmo visual — é cuidadosamente pensado para transmitir significado.

Marcas como Hermès, Loro Piana e Bottega Veneta exemplificam esse movimento ao construir desejo por meio da consistência e da discrição, evitando excessos e priorizando clareza simbólica.

Integração entre estratégia e design

O cenário atual elimina a separação entre estratégia e design. Quando desconectados, ambos perdem força. Estratégias sem expressão consistente permanecem abstratas, enquanto soluções visuais sem base estratégica se tornam apenas exercícios estéticos.

Portanto, o diferencial competitivo passa a estar na integração entre pensamento estratégico e linguagem de design, formando um sistema capaz de gerar valor duradouro.

Por fim, em um mercado onde imagens podem ser produzidas em escala e produtos se tornam rapidamente equivalentes, são as marcas que constroem significado com consistência que se destacam. Mais do que serem vistas, elas são compreendidas, reconhecidas e lembradas.

Foto: Divulgação

Design ganha papel estratégico na construção de marcas
Sair da versão mobile