Alex Ferraz

E-commerce pressiona portarias e muda logística

O avanço do e-commerce no Brasil começa a revelar um novo desafio urbano: a sobrecarga das portarias de condomínios. Com o crescimento no volume de entregas, esses espaços passaram a funcionar como extensões improvisadas da cadeia logística, sem estrutura adequada para a demanda.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABCOmm), apenas no primeiro semestre de 2025 o setor movimentou R$ 100,5 bilhões. Além disso, estimativas apontam que o volume de encomendas em condomínios aumentou mais de 40% nos últimos dois anos, ampliando a pressão sobre as equipes responsáveis pelo recebimento.

Portarias viram gargalo logístico

Na prática, a rotina dos condomínios já mudou. Filas para retirada, extravios, acúmulo de pacotes e falhas no controle de entregas se tornaram cada vez mais comuns. Enquanto isso, porteiros assumem funções que vão além da segurança, acumulando tarefas logísticas complexas.

Segundo Thais Mendes, Head of Customer Experience na área de Smart Solutions da Pitney Bowes, o cenário revela uma transformação estrutural.

“O prédio virou parte da cadeia logística, sem ter sido planejado para isso. A portaria, que antes tinha foco em controle de acesso e segurança, hoje precisa lidar com uma operação intensa de recebimento, armazenamento e entrega de encomendas”.

Dessa forma, o que antes era uma função complementar passou a ocupar papel central na rotina condominial.

Tecnologia ganha protagonismo

Diante do aumento da demanda, soluções digitais vêm sendo adotadas para organizar o fluxo de entregas. Sistemas de mensageria permitem o registro rastreável das encomendas, além do envio de notificações em tempo real, eliminando controles manuais.

Quando integradas a armários inteligentes, conhecidos como smart lockers, essas tecnologias ampliam ainda mais a eficiência. Assim, moradores podem retirar suas encomendas com autonomia, a qualquer hora do dia.

A Clique Retire, em parceria com a Pitney Bowes, atua nesse cenário oferecendo soluções que conectam gestão digital e infraestrutura física para condomínios e empresas.

Resultados e mudança de comportamento

Na prática, os impactos já podem ser medidos. Em apenas 60 dias, a Pitney Bowes processou mais de 18.800 protocolos em condomínios residenciais e corporativos. Além disso, houve redução média de 40% no tempo dedicado à gestão de encomendas.

O uso de aproximadamente 2 mil portas de smart lockers e a adesão de mais de 65 empresas mostram que a transformação está em curso. Enquanto isso, cerca de 1 mil apartamentos já foram atendidos nesse período.

Para Gustavo Artuzo, CEO da Clique Retire, a mudança está diretamente ligada ao comportamento do consumidor.

“A logística moderna exige que a entrega se adapte à rotina do consumidor, e não o contrário. Os condomínios que ignoram a automação das encomendas estão fadados ao colapso operacional”.

Segundo ele, a proposta é garantir conveniência ao morador e eficiência à gestão, sem sobrecarregar as equipes.

Desafio em escala nacional

O impacto desse cenário se amplia quando observado em escala nacional. De acordo com o Censo Condominial 2025/2026, o Brasil possui mais de 327 mil condomínios ativos, que abrigam cerca de 39 milhões de moradores.

Assim, com um em cada oito endereços do país localizado em condomínios, a eficiência da chamada “última milha” se torna cada vez mais crítica. Além disso, a necessidade de adaptação tende a crescer à medida que o e-commerce avança.

Para especialistas, a automação deixa de ser opcional e passa a ser essencial. Dessa forma, condomínios que investirem em tecnologia terão mais capacidade de absorver a demanda sem comprometer a experiência dos moradores.

Por fim, a tendência é que a portaria deixe de ser um ponto de sobrecarga e passe a assumir um papel mais estratégico dentro da gestão condominial.

Foto: Divulgação

E-commerce pressiona portarias e muda logística
Sair da versão mobile